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'3%', primeira série produzida no Brasil pela Netflix, é precária

União de referências, programa tem texto ruim e elenco inconvincente

Pedro Venceslau , O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2016 | 16h00

Nada se salva na série 3%, a esperada primeira produção 100% brasileira da Netflix. Esperava-se mais no país que registra o maior número de assinantes da plataforma no mundo. 

Enquanto a Inglaterra recebeu a deslumbrante The Crown, a França a intensa Marselle, o México a divertida Club de Cuervos, a Colômbia a competente Narcos e os Estados Unidos a incomparável House of Cards, o Brasil contribuiu com uma versão tosca de Jogos Vorazes

3% é, na verdade, uma mistura de referências. Tem um pouco de Black Mirror (ao beber na fonte da realidade distópica), uma pegada Big Brother (no ritmo de reality) e muito da franquia que levou para os cinemas a trilogia da autora americana Suzanne Collins. 

Em futuro não datado, o mundo está dividido em dois. De um lado, está o Continente, onde faltam água, comida e energia e sobram pessoas desesperadas para sobreviver ao dia seguinte; do outro, está o Mar Alto, um oásis de prosperidade e tecnologia futurista. 

Esse paraíso, porém, está reservado para uma elite formada pelos 3% da população. São esfarrapados que chegam lá após cumprir uma série de provas. Em um processo carregado de metáforas baratas e mensagens de autoajuda, sobrevive quem melhor se encaixa no esquema. 

Estão lá o cadeirante negro filho de um pastor, a jovem infiltrada pelos rebeldes que lutam contra o sistema, o rapaz trapaceiro. A maioria do elenco é de jovens atores que não convencem. Nem os experiente João Miguel (Estômago) e Bianca Comparato (da novela Avenida Brasil se salvam. 

Eles estão amarrados a um roteiro precário e à diálogos tão ruins que chegam a ser constrangedores. 3% é uma ficção científica pretensiosa com baixo orçamento. 

O resultado não podia ser outro. A prometida primeira produção nacional da Netflix só não foi solenemente ignorada pelas redes sociais porque virou motivo de piada. 

Não passou despercebido, por exemplo, o figurino dos habitantes do Continente, que foi comparado às fantasias de escola de samba de Joãozinho 30 no desfile do lixo ao luxo. 

Para realçar a pobreza de alguns personagens, usaram algo parecido com piche em suas bochechas. Ninguém entendeu muito bem a roupa futurista de Ezequiel e o visual da torturadora sádica que não descuida do batom vermelho. 

Projeto promissor. A nova atração da Netflix foi concebida a partir de um projeto que tinha tudo para ser promissor. Começou com três episódios pilotos de uma websérie no canal YouTube, em 2009. Segundo a plataforma de streaming, a decisão de comprar a série foi tomada após uma mobilização dos fãs. Sensibilizada pela corrente dos fãs, a plataforma procurou a produtora Boutique Filmes e fechou um contrato. 

Dessa forma, foi incorporada ao cardápio da Netflix. Perdeu-se infelizmente uma chance preciosa de apresentar alguma novidade brasileira nesse mundo novidadeiro do realismo distópico.

A atração consegue a façanha de ser pior que a mal ajambrada Supermax, da Globo Play. 

Algumas séries começam e terminam bem, enquanto outras começam mal nos primeiros episódios, mas evoluem nos seguintes. 

3% é ruim do começo ao fim, sem concessões. 

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