VICTORIA DANNEMANN
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'Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba' retrata a cultura de subúrbio

"Percebi ali um cronista, um artista que universalizou seu cotidiano (como comida, religião), mas sem perder a originalidade", conta Gustavo Gasparani, que vive o sambista no palco

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2018 | 06h00

Zeca Pagodinho não fez nenhuma exigência quando lhe foi apresentado o projeto de um musical sobre sua vida e obra – gostou muito do tom fabular do texto, da seleção das músicas, da escolha dos personagens que marcaram sua trajetória. Fez apenas um pedido: a presença de Baixinho, que foi porteiro de seu sítio em Xerém, na Baixada Fluminense, e hoje é um amigo chegado. Sóbrio, é um amor de pessoa. Bêbado, xinga o cantor, repetindo o que se tornou um bordão: “Você não canta p... nenhuma!”. “Eu precisava de alguém que me escangalhasse tão bem”, diverte-se Pagodinho.

Ele assistiu quatro vezes a Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba, musical que ficou em cartaz no Rio de Janeiro no ano passado. Em todas, subiu ao palco no final para cantar Deixa a Vida me Levar e Vai Vadiar. “Pena que não conseguirei fazer o mesmo em São Paulo”, lamenta-se Pagodinho, referindo-se à temporada paulista, que começa no sábado, 14, no Teatro Procópio Ferreira. “É realmente uma pena, pois seria a chance de o público – especialmente aquele que não conhece bem seu trabalho – perceber como não existe diferença entre o artista e o cidadão”, comenta Gustavo Gasparani que, além de escrever e dirigir o musical, ainda interpreta Zeca Pagodinho como adulto. Eclético – vai de Shakespeare ao samba, passando por artistas sofisticados como Gilberto Gil –, Gasparani conhece há tempos a importância da obra do cantor e compositor. Em 2009, ele fez as primeiras pesquisas, depois de ter apresentado duas canções dele na Opereta Carioca (2007). “Percebi ali um cronista do subúrbio carioca, um artista que universalizou seu cotidiano (como comida, religião), mas sem perder a originalidade.”

Em 2012, Gasparani foi convidado a escrever um musical sobre Zeca Pagodinho, mas o projeto não embarcou imediatamente. Quando isso aconteceu, no ano passado, ele propôs algo original: em vez da tradicional biografia que normalmente é levada ao palco, Gasparani pensou em algo mais fabular, que extrapolasse o realismo sem abandoná-lo totalmente, permitindo até cenas em que o Zeca real conversasse com o Zeca ficcional. “Propus isso aos produtores (Victoria Dannemann e Sandro Chaim) e ao próprio Zeca, que abraçaram a ideia”, conta ele, que desenvolveu a história em dois atos, mas ambos centrados na figura de Jessé Gomes da Silva Filho, nome de batismo do artista. Assim, no primeiro ato, o jovem Jessé é conduzido por uma espécie de trem do samba, cujas paradas representam momentos importantes da sua vida. O destino é a Estação Sucesso e o jovem músico é acompanhado de seus anjos da guarda Cosme e Damião. “É quando descobrimos o universo da Baixada Fluminense, seus ritos, sua rotina, sua culinária, seus personagens típicos”, conta Gasparani, que não se esquece, é claro, da famosa roda de samba na qual os “partideiros” ajudam a contar a história da transformação de Jessé em Zeca Pagodinho.

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Nesse momento, o jovem Jessé é vivido por Peter Brandão, que impressionou a produção durante os testes – não por se parecer fisicamente com o cantor ou mesmo por reproduzir com exatidão seus gestos. “Peter revelou ser também um batalhador, um cara humilde que busca seus objetivos”, explica Gasparani que, inicialmente, pretendia narrar toda a história em apenas um ato. “Mas não seria fácil Peter interpretar o Zeca desde jovem até mais adulto.”

Com isso, após um intervalo, o espetáculo recomeça com um salto no tempo, quando Zeca Pagodinho já é conhecido e adorado pelo público. “Avançamos dez anos na trama, quando é possível, aí sim, descobrir a essência do Zeca, ou seja, como o sucesso não alterou em nada o comportamento do músico, que continua frequentando Xerém. Em minhas pesquisas, descobri que o Zeca é uma espécie de Macunaíma carioca, ou seja, o cara que tinha tudo para dar errado, mas brilhou na vida sem ignorar suas raízes. Venceu sem precisar vender a alma ao diabo.”

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É nesse segundo ato que Gasparani assume o papel de Zeca – para isso, precisou engordar um pouco, ainda que a barriguinha proeminente, tão conhecida do cantor, apareça graças ao trabalho da produção. Como nessa fase surge o Zeca já famoso, Gasparani optou por usar alguns trejeitos conhecidos do cantor, como sua forma de se sentar ou mesmo de se apresentar no palco. “Zeca ficou famoso ainda muito jovem e, como ele mesmo diz, era um touro bravo que foi se amansando. Mas soube driblar o destino e continuar fiel a si mesmo”, explica o ator/diretor/escritor. Em cena, além dos quatro músicos e seu regente, Gasparani divide o palco com outros 12 atores. Talvez pudesse acrescentar mais um, o próprio Zeca Pagodinho, se ele não aparecesse em um vídeo. É o momento mais fantasioso do espetáculo: “É quando ele ainda é apenas o jovem Jessé e conversa com o homem em que ele vai se tornar em alguns anos. É a cena em que Zeca reflete sobre si mesmo e sua obra”.

Nascido em Irajá, em 1959, e criado em Del Castilho, Zeca já trocava, quando criança, as aulas pelas rodas de samba. Nos anos 1970, quando o partido-alto começa a tomar conta dos subúrbios do Rio, o jovem Jessé concilia a música com uma série de atividades, desde feirante e camelô a contínuo e anotador de jogo do bicho. É nessa época em que ele vai conhecer as pessoas que vão se tornar amigos valorosos: Paulão Sete Cordas, Monarco, Mauro Diniz, Almir Guineto, Bira Presidente, Beto Sem Braço e Arlindo Cruz, entre outros. Versador de respeito, logo tem sua primeira música gravada, Amargura, no segundo disco do grupo Fundo de Quintal. 

Isso permitiu que ele conhecesse Beth Carvalho, que se tornou sua madrinha ao gravar seu primeiro grande sucesso, Camarão Que Dorme a Onda Leva. “Praticamente todos são apresentados de forma carinhosa no musical, pois foram decisivos na formação do Zeca”, conta Gasparani que, se pudesse resumir a trajetória do cantor, adotaria um verso do sambista Roberto Ribeiro, muito lembrado no espetáculo: “O que se leva desta vida é o que se come, o que se bebe, o que se brinca”.


‘Arlindo e eu éramos Cosme e Damião’, Zeca Pagodinho, cantor e compositor

Como é a sensação de ver sua vida encenada no palco?

É muito emocionante. A pesquisa foi muito bem feita e minha vida é aquilo: muitas histórias (algumas engraçadas), boemia, poesia. Mas tinha muita coisa para contar – se colocassem tudo, o espetáculo duraria um mês! (risos)

Os atores te interpretam bem?

São ótimos. Acho que até fiquei bonito no palco (risos). E o Gustavo me imita direitinho, até meu jeito de andar.

Você não fez nenhum pedido de acréscimo na história?

Não, achei tudo perfeito. Só pedi para incluir o Baixinho, que foi porteiro do meu sítio em Xerém e que me escangalha muito bem (risos).

No Rio, você viu várias vezes o espetáculo, não?

Sim, acho que três ou quatro. Gosto de observar detalhes, ver melhor o cenário, certos personagens. Mas faço isso com qualquer obra que gosto – tem disco, por exemplo, que ouço umas dez vezes.

Acompanhar a própria história não provocou uma nostalgia?

Pois é... (pensativo). Me fez pensar em momentos da vida, em coisas que poderia ter feito, em outras que não consegui fazer. 

Seus amigos são apresentados, como Arlindo Cruz. Acredito que tenha ficado feliz com a volta para casa do Arlindo Cruz.

Muito, muito. Mas quero o Arlindo conversando por telefone comigo, ouvindo samba. Eu e Arlindo éramos como Cosme e Damião, quando crianças. 

Acompanhou a Copa?

Não, dou azar. Via um pouco, mas saía logo da sala.

ZECA PAGODINHO – UMA HISTÓRIA DE AMOR AO SAMBA. Teatro Procópio Ferreira. R. Augusta, 2.823. 5ª e 6ª, 21h. Sáb., 17h e 21h. Dom. 17h. R$ 80. Até 5/8

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