Sayara Elielson Pacheco
Sayara Elielson Pacheco

‘Yolanda’ é um seriado íntimo e familiar

Trata-se de um trabalho audiovisual, entre a dança, o videoclipe e o documentário, que se soma às transformações que as tecnologias impulsionam

Fernanda Perniciotti, Especial para O Estado

08 Outubro 2018 | 06h00

A videoarte e, mais tarde, a videodança são marcas de diálogo entre arte e tecnologia. No Brasil, algumas experiências têm sido realizadas nessa direção, como o seriado Yolanda, o mais recente trabalho da artista piauiense Sayara Elielson Pacheco. Sayara foi uma das integrantes do Núcleo do Dirceu, plataforma de criação artística coordenada pelo coreógrafo Marcelo Evelin, de 2006 a 2016, com significativa atuação em Teresina, e uma repercussão nacional que colocou o Piauí no restrito mapa da dança no Brasil. 

Yolanda é um trabalho audiovisual – entre a dança, o videoclipe e o documentário – que se soma às transformações que as tecnologias impulsionam, como a Netflix, as mídias alternativas, as redes sociais, e busca outras formas de conexão entre dança e público. Os episódios podem ser vistos até 22 de dezembro no site OCorreDiário. 

A originalidade do projeto não está só no fato de ser um seriado-dança, mas também na escolha em usar como cenário a casa dos pais. “É um convite à casa a partir de memórias, trabalhos que atravessam a minha trajetória”, afirma a artista. A história é contada em uma coreografia de objetos e texturas, como a renda na toalha, o pano de prato bordado, o chão de terra vermelha que dá nome ao bairro, a imigração e o sobrenome, o choro da despedida de alguém que vai embora tentar a vida em São Paulo e a culpa por gostar de meninos.

A partir da sucessão de imagens que formam uma paisagem familiar a muitos brasileiros, Sayara buscou um autorretrato que não estivesse restrito à sua história: “Minha preocupação era ficar em um texto muito forte da pessoalidade, autorreferencial, sem conseguir dialogar com um contexto maior. Me interessam as lembranças que não são só minhas, mas que remetem às memórias da vida de quem vê”. 

Um outro ponto a sublinhar é a ficha técnica do trabalho ser composta pela família de Sayara. Apesar das interlocuções com outros amigos e artistas, é Conceição de Maria, a tia, que assina a série, que tem participações especiais e produção de Celita Pacheco, a mãe. “Escolhi um olhar familiar, caseiro. Estar disponível para estar junto e dialogar foi o ponto mais importante na escolha da tia.”

Assunto latente no seriado é a proposta de um corpo não binário, aquele que não se identifica com os gêneros normativos: masculino ou feminino. “Esse assumir, para mim mesma, esse corpo, é bem recente. Inclusive, aconteceu um pouco antes de a série começar, porque, antes, mesmo o meu corpo já se manifestando assim, eu não entendia as dimensões”, afirma a artista, que diz explorar em um dos episódios a violência sofrida por um corpo não adaptado às normas sociais.

“Queria uma reflexão partilhada, e o vídeo, principalmente pela relação com a internet, por conta do alcance, me pareceu um bom lugar”, diz Sayara, que encontrou no formato seriado um jeito de continuar criando, mesmo sem financiamento.

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