Wanderléa fica na superfície ao cantar Sueli Costa

Wanderléa fica na superfície ao cantar Sueli Costa

Apesar de sua voz estar intacta, cantora não foi forjada para os mergulhos emocionais propostos pela compositora

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2016 | 05h00

Cantar Sueli Costa é para os fortes. Ela compõe com um equilíbrio preciso entre o que tem força para ser popular e o que preserva sua identidade sofisticada, firmada em uma inteligência harmônica imaculável. Sua música requer uma entrega imersiva de mergulhadores escafandristas, jamais de navegadores de superfície, e parece reclamar diante de uma interpretação ou um arranjo menos criterioso.

Wanderléa é forte. Ela tem uma marca inconfundível estampada no vibrato que faz obrigatório nos finais de frase, o mesmo que soaria exagero em outras vozes, mas sua força não está direcionada para a interpretação que sugere a canção de Sueli Costa no disco Vida de Artista. Apesar da vida banhada por acontecimentos trágicos, sua alma não se armou de lamentos e sua voz não chora – blindagem que lhe garantiu o trono na expansiva Jovem Guarda, mas que a limita nas aventuras mais introspectivas de Sueli Costa.

Sua voz está grande em sua técnica intuitiva. Ela tem brilho, cria nuances, está leve e se diverte. Conta com os arranjos audaciosos de Agenor de Lorenzi e encara pedreiras de referências ingratas, como 20 Anos Blue, gravada por Elis. A superfície linear, no entanto, parece intransponível em Amor Amor, com arranjo que parece seguir o conceito de contenção emocional. Alma é feita sem a explosão que Simone usou para gravá-la em 1982. O disco é uma curiosidade de carreira, mas a verdade de Wanderléa não está aqui.

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