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Wajdi Mouawad soma Lepage e Rembrandt no espetáculo 'Solos'

Diretor traz montagem ao Brasil para uma curta temporada no Sesc Pinheiros, de 5 a 7 de novembro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2015 | 05h00

Houve um tempo em que Wajdi Mouawad não fazia outra coisa senão acompanhar as montagens da peça Incêndios. Deu a volta ao mundo. No Japão, viveu experiência mais estranha. “E não era só por causa da língua, que não entendo. Poderia, talvez, seguir a montagem com meu conhecimento do texto, mas as falas eram ditas de um jeito que não identificava o começo nem o fim das frases. Fiquei perdido”, ele conta, numa entrevista por Skype, de Paris. O sucesso começou a pesar.

Incêndios virou referência. Tudo o que fazia era comparado. É melhor, é pior, diziam. Percebi que tinha de me desligar da peça. Incêndios teria de seguir sua trajetória para que eu seguisse a minha.” Incêndios integra uma trilogia com Littoral e Fôrets/Florestas (o fecho). Mouawad dirigiu o filme adaptado de Littoral. E agora encena Seul(s), Solo(s). O novo espetáculo o traz ao Brasil para uma curta temporada no Sesc Pinheiros, de 5 a 7. Seul(s) nasceu de uma crise. “Sentia-me desmotivado. Comecei a pensar no que me devolveria o entusiasmo da juventude? O espetáculo nasceu dessa inquietação.” O próprio Mouawad faz um estudante de sociologia do imaginário, que tenta concluir tese sobre o quadro como espaço de identidade nos solos de Robert Lepage.

Nascido no Líbano, Mouawad deixou o país de avião com a família. Não saiu fugitivo, e isso faz toda a diferença, admite. Viveu em Paris. Em Montreal, fez-se quebecois por adoção (como Robert Lepage). Formou-se na Escola Nacional de Teatro do Canadá. Reconhece sua dívida com Lepage. De certa forma, é seu pai artístico. Foi dele o primeiro espetáculo que tem consciência de ter assistido. Desde então, acompanha seu processo criativo, e Lepage retribui, acompanhando o dele. “Robert assiste a meus espetáculos e tem sempre uma palavra de incentivo, mesmo quando eventualmente, faz críticas.”

Ainda fala libanês, mas muito privadamente. “A questão da identidade me persegue. Solo(s) nasceu da vontade de romper um isolamento que não é só meu, daí o plural.” Embora não se considere homem de cinema, fez uma descoberta decisiva ao dirigir Littoral. “Tenho plena consciência de que não sou cineasta. O filme não me satisfaz, mas tem coisas de que gosto muito. O mais importante é que, durante a montagem, descobri que não contava minha história só com imagem, e texto, e interpretação. Contava com o som. Trouxe isso para o teatro. Solo(s) agrega som, telão. Propõe uma experiência de imersão.”

E, por isso, Mouawad está curioso para ver como será a reação do público no Brasil. “Representar para quem conhece meu trabalho produz uma resposta. Na Romênia, foi ótima. Em Washington, para os vencedores, não houve essa resposta. Sentia certa hostilidade.” Seu teatro é épico, ou tem sido épico. Solo(s) é diferenciado. Para evocar a busca de identidade do personagem – ele mesmo, de cueca, em cena –, Moawad mistura elementos autobiográficos à admiração por Lepage. O quadro O Retorno do Filho Pródigo, de Rembrandt, é uma referência visceral. O filho pródigo é Mouawad? Quando o pai fictício entra em coma, o herói se interroga sobre raízes, cultura, sobre o sentido da vida e a transmissão dos valores familiares. “Quando a gente percebe que está arruinando a nossa vida?”, indaga-se. Solo(s) é isso.

SOLOS. Sesc Pinheiros. Teatro Paulo Autran. Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, telefone 3095 9400. 5ª a sáb., 21 h. R$ 30. Até 7/11. Estreia quinta (5/11).

 

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