TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Visita teatralizada conta história de São Paulo e detalhes do prédio histórico do CCBB

Cia. Mar se transforma em viajantes do tempo, vindos de 1930, para recontar detalhes sobre o Centro Cultural Banco do Brasil

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2021 | 05h00

Nos arredores do Mercado Municipal da cidade, era possível ouvir o som de tiros. Não se tratava de um confronto direto, ou um assalto, embora São Paulo estivesse em meio à revolta contra o governo provisório de Getúlio Vargas. “Naquela época, o Mercado se transformou em um campo de treinamento para os soldados. Também era lá que eles armazenavam armas e munições”, conta a atriz e arte-educadora Jéssica Policastri. 

Essas e outras histórias serão resgatadas pela Cia. Mar em uma visita teatralizada pelo interior do Centro Cultural Banco do Brasil, em comemoração ao aniversário de 467 anos de São Paulo, festejado no próximo dia 25 de janeiro. A visita acontece ao longo de todo o ano, nos sábados, segundas, quartas, e quintas. 



A década de 1930 era promessa de novos tempos. Por volta de 1923, o Banco do Brasil adquiriu o prédio que hoje abriga seu Centro Cultural e, desde 1927, funcionava como sua primeira agência bancária em São Paulo, na Rua Álvares Penteado. Com arquitetura considerada eclética, o prédio restaurado por Hippolyto Pujol traz características da Belle Époque, com forte influência francesa, bem como uma estrutura de concreto armado, uma inovação para a época. Com elementos da cultura greco-romana e do rococó, o prédio guarda detalhes e segredos que a Cia. Mar pretende desvendar junto ao público.

A concepção da visita teatralizada vem de encontro à experiência da companhia em mediação de patrimônio cultural e arte-educação, conta Jéssica. O grupo surgiu em 2016 no contexto das muitas exposições realizadas no CCBB. Com elenco formado em Letras e Sociologia e outras áreas, a Cia. Mar encontrou no teatro uma ferramenta para contar histórias e compartilhar informações. “Existem diversas formas de conduzir o público quando se trata de patrimônio cultural. O teatro nos ajuda a não ficar apenas no informativo, mas a distribuir dados reais em histórias inventadas”, completa. 

Para o diretor artístico Kleber Montanheiro, investigar detalhes sobre os mais de 100 anos do prédio permitiu desenvolver uma dramaturgia particular que pudesse inserir o público – reduzido a seis participantes por sessão – ao passeio pelo CCBB. “Criamos personagens que seriam comuns nos anos 1930, como um arquiteto, uma fotógrafa e um florista. Cada um deles ressalta um ponto de vista sobre aquele período”, explica.



Na visita, o público vai testemunhar pessoas que viajaram no tempo para o nosso presente. Organizado como um programa de rádio, o grupo resgata o passado sob o ponto de vista atual, o que também inclui o impacto da pandemia do coronavírus. “Quando o primeiro deles aparece, logo quer tirar a máscara por não entender o que está acontecendo”, conta Montanheiro. “É quando ele recebe um aviso que se trata de um protocolo sanitário de 2021.”

Entre os detalhes trazidos pela rádio da Cia. Mar, estão a beleza da arquitetura do prédio, com seu vitral magnífico no terceiro andar, mas que, antes do restauro de Pujol, estava no segundo andar. “O vitral servia para esconder o terceiro andar, mais simples, que abrigava arquitetos e outros profissionais que alugavam o espaço.”

Do térreo ao segundo lugar, ficavam as dependências da agências, ornamentadas com seres mitológicos que inspiravam os clientes do banco. “Há pinturas de Hermes, o deus do comércio, Nice, a deusa da vitória, e Baco, representante da agricultura, importante para os barões do café. Há também ilustrações de Hefesto”, conta Jéssica, que é acompanhada dos atores Beatriz Barros e Bruno Lourenço, e dos músicos Alisson Amador e Gustavo Surian

Outro espaço curioso é a sala do cofre, um bloco importado e de fabricação francesa com 17 toneladas, segundo a atriz. “Antigamente, o espaço considerado o coração do prédio era apenas acessado por um elevador antigo.”

Criada para quem desconhece o interior do CCBB e também para o público mais habitual, a visita pretende se tornar um passeio de redescobertas e surpresas, agora recontadas sob o ponto de vista dos viajantes do tempo. 

Além da experiência presencial, o grupo produziu uma visita gravada para que, na pandemia, a história esteja ao alcance de todos no link.

 

SERVIÇO: 

VISITA TEATRALIZADA AO CCBB

RUA ÁLVARES PENTEADO, 112

TEL.: 4297-0600

DIAS 25 E 30/1; 6 E 13/2; 13 E 27/3; 10, 21 E 24/4; 8 E 22/5; 3, 12 E 26/6, De 3/7 A 18/12, SÁBADOS, ÀS 11H

GRÁTIS

ESTREIA 25/1

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