Alê Mandu
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Visita ao passado de Copi discute o que é ser soropositivo hoje

Personagens do cartunista e dramaturgo argentino são despertados para atestar os últimos delírios do autor, em ‘Desmesura’

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2017 | 03h00

O caos criado por Copi (1939-1987) em suas dramaturgias só ganhava ordem com a direção do amante Jorge Lavelli. Radicados na França, a relação ultrapassava o teatro, passando pela literatura e desenho.

Em Desmesura, que estreia nesta sexta, 5, no Centro Cultural São Paulo, o Teatro Kunyn desperta personagens da ficção e realidade que se encontram com o argentino, morto pela aids, em seus últimos instantes de vida. “São delírios de familiares que marcaram sua vida, ou de eventos significativos na trajetória do dramaturgo”, explica o ator Ronaldo Serruya, que agora estreia como dramaturgo. “Apesar de conhecer suas peças, achei mais interessante criar uma história sobre sua vida.” 

Embora seja pouco conhecido e montado no Brasil e na América Latina, Copi é autor de textos como O Homossexual ou A Dificuldade de Se Expressar e A Geladeira, que estiveram em cartaz na cidade no ano passado. Nessas peças, as personagens encaram a sexualidade como uma condição fluida. “Elas mudam de sexo junto com as cenas”, explica Serruya.

Em Desmesura, o passeio pela vida de Copi é motivo para discutir a atualidade de ser soropositivo. Para o dramaturgo, os últimos 30 anos ainda influenciam o debate sobre a transmissão do HIV e da convivência com o vírus da aids. “Naquela época, os portadores já tinha ideia de que morreriam em breve. Hoje, com tantos recursos investidos em pesquisa e desenvolvimento de medicamentos, as pessoas vivem. As narrativas não precisam ser só de morte.”

No palco, as estranhas figuras como a avó de Copi, uma travesti e um policial nascem de um buraco e passam a compartilhar memórias com o argentino, conta o diretor Luiz Fernando Marques. “Eles também atualizam a própria visão do legado de Copi”, recorda. 

Em uma das cenas, a travesti se recusa a surgir como um homem de barba. “Isso nos abre espaço para discutir o lugar de fala”, avalia Serruya. “Antes, isso não era uma questão, mas hoje é importante pensar no protagonismo dessas pessoas.”

Peça integra mostra no Teatro de Contêiner

A partir de terça, 9, o Teatro de Contêiner, da Cia Mungunzá, vai abrigar uma mostra com 10 espetáculos dirigidos por Luiz Fernando Marques, na Rua dos Gusmões, 43, no bairro da Luz. 

Na abertura, às 20h, os pernambucanos do grupo Magiluth trazem o espetáculo Aquilo Que Meu Olhar Guardou Para Você, jogo de cenas curtas sobre o homem e suas relações com família, amores perdidos, morte e Deus. 

Coletivos como Cia das Flores, Grupo XIX de Teatro, Cia Pinanbeta e a própria Mungunzá também apresentam seus espetáculos. Desmesura vai encerrar a mostra em 18 de junho.

DESMESURA. Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000. Tel.: 3397-4002. 6ª, sáb., 21h, dom., 20h. R$ 20 /  

R$ 10. Estreia hoje, 5. Até 11/6.

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