JF Diório/Estadão
JF Diório/Estadão

Vera Fischer volta ao teatro com nova peça

Cansada de novela, atriz está na comédia ‘Relações Aparentes’

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

05 de junho de 2015 | 05h00

Vera Fischer nasceu para ser diva. Aos 63 anos, a ex-Miss Brasil mantém um porte imponente, garboso, e cabelos ondulados como as grandes estrelas do cinema dos anos 1960. Distante do mundo artístico desde 2012, quando participou (e não gostou) da novela Salve Jorge, Vera volta hoje aos palcos paulistanos na comédia Relações Aparentes, que estreia no Teatro Gazeta. “Desde o primeiro ensaio, percebi seu carisma indisfarçável”, comenta Edson Fieschi, que divide a direção com Ari Coslov.

De fato, Vera surge radiante. No texto escrito pelo inglês Alan Ayckbourn (especialista em comédias elegantes), ela vive Sheila, mulher de Philip (Tato Gabus Mendes), que está mantendo um caso com uma moça mais nova, Ginny (Anna Sophia Folch). Quem suspeita da relação ilícita é o namorado de Ginny, Greg (Michel Blois). Para matar a charada, ele resolve seguir a namorada em uma suposta visita dela aos pais – ela, na verdade, se prepara para se encontrar com o amante. Assim, quando chega à casa de um casal mais velho, Greg acredita serem os pais da moça, iniciando uma comédia de erros.

“Estou me realizando nesse papel, especialmente porque planejava voltar ao teatro com um drama”, conta Vera, que não atuava em São Paulo desde 1998, quando participou de Gata em Teto de Zinco Quente, texto clássico de Tennessee Williams. Do dramaturgo americano, aliás, Vera comprou os direitos de outra peça, que prefere manter em segredo. Arrematou ainda os direitos de uma peça de Eugene O’Neill, a qual também não revela, mas não esconde seu desejo de montar Longa Jornada Noite Adentro.

“Sou produtora de meus espetáculos, daí minha surpresa ao ser chamada para fazer essa comédia”, explica Vera. A carreira de Relações Aparentes começou no Rio, mas, do elenco original, apenas Tato Gabus Mendes permaneceu. “Buscamos aqui uma nova concepção, apostando mais na comédia”, explica Fieschi, que começou como auxiliar de Coslov na direção, mas sua participação tornou-se tão importante que passou a também assinar a encenação.

“Trata-se de um texto matemático, em que os diálogos precisam ser ditos com precisão para provocar risos”, comenta Gabus Mendes. “E Vera tem momentos marcantes, pois interpreta a esposa obrigada a engolir a traição do marido.”

A peça foi escrita em 1965, portanto, é ambientada naquela época, quando determinados valores morais ainda eram muito rígidos. Fieschi conta que preferiu não ser tão rigoroso na ambientação, mas manteve um ar clássico, que combina com a encenação. “Ayckbourn é autor de mais de 80 peças, comédias agridoces em que a crítica social aparece subliminarmente. Portanto, o mais importante é preservar o frescor do texto.”

Admirador de outro mestre da comédia refinada, o americano Neil Simon, Fieschi logo entendeu a engrenagem da peça do autor inglês que, sem uso de palavrões ou gestos exagerados, conquista o riso por meio da inteligência da palavra.

“Um dos aspectos mais interessantes é que se trata de um espetáculo em que os quatro personagens têm pesos semelhantes”, observa Michel Blois. “Todos são peças que acabam envolvidas em uma mentira que vai se desenrolando ao longo da trama”, completa Anna Sophia Folch. Os jovens atores confirmam a delicada relação cênica criada com os veteranos. “Para que a comédia funcione, é preciso que todos estejamos afinados, pois uma fala depende da réplica, e assim por diante”, diz Blois.

Foi essa esgrima dramatúrgica (ou um frescobol em cena, como prefere Fieschi, pois, como no jogo de praia, o que importa é apoiar e não vencer o adversário) que encantou Vera Fischer. Em sua carreira, ela interpretou personagens clássicos como Lady Macbeth, Mrs. Robinson, de A Primeira Noite de Um Homem, e a sofrida Maggie, de Gata em Teto de Zinco Quente. “Aqui, o exercício é outro, o timing das palavras é diferente e o resultado sempre será surpreendente: o que provoca riso hoje pode ser recebido com silêncio amanhã.”

Vera não esconde sua ansiedade – “Se eu cair em cena, por favor, pense que faz parte da peça”, brincou ela com o repórter. Mas, ao mesmo tempo, é uma mulher determinada em suas ações. Desde que encerrou seu trabalho em Salve Jorge, do qual não guarda boas recordações (“Para fazer uma mulher sentada atrás de uma mesa, dizendo algumas palavrinhas, prefiro ficar em casa”), ela se dedicou a outras tarefas, como pintar e escrever. Vera é autora compulsiva. Já lançou diversos livros, como os autobiográficos Vera: A Pequena Moisi e Um Leão Por Dia, em que faz revelações como a simpatia do pai por Hitler e detalhes de sua primeira vez aos 15 anos.

A atriz também publicou ficção, como Serena e Lucíola, além de uma dezena já escrita, à espera de editora. “Crio histórias fortes, como relações incestuosas ou freiras assassinas”, diverte-se ela que, com contrato renovado com a Globo por mais dois anos, agora só quer fazer seriados. “Novela cansa.”

RELAÇÕES APARENTES

Teatro Gazeta. Avenida Paulista, 900, metrô Trianon-Masp,

3253-4102. 6ª, 21h; sáb., 20h; dom., 18h. R$ 80/R$ 70. Até 26/7. 

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