Divulgação
Divulgação

Vedete dos anos 70 retrata Brasil monocromático

Lilian de Lima canta os duros anos da ditadura na reestreia do espetáculo ‘Da Cor do Chumbo’, da Cia do Tijolo

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2015 | 04h00

Existem peças que fazem da música um acompanhamento ritmado ou mesmo um suporte dramático para as personagens da encenação. Não é esse o caso de grupos como Cia São Jorge de Variedades, Cia do Feijão e a Cia do Tijolo. “Nossa pesquisa se aproxima da busca por integrar sons na dramaturgia. A música existe não como fundo, mas enquanto narrativa”, explica a atriz Lilian de Lima, que volta em cartaz com Da Cor do Chumbo, de Milton Morales Filho, nesta quinta-feira, 26, na Casa Livre.

Essas companhias vivem intensas trocas com músicos e instrumentistas como Lincoln Antonio – das recentes Entrevista com Stela do Patrocínio (Georgette Fadel) e Manuela, vivida por Vera Lamy – e William Guedes, que assina composições e arranjo do espetáculo da Cia do Tijolo. “Nossos trabalhos são concebidos nessa mistura. É muito difícil separar o que é texto e o que é música”, conta a atriz. 

Em Da Cor do Chumbo, a vedete Patrícia ensaia seu show enquanto aguarda a chegada do amante, um general. O ambiente é o Brasil dos anos 1970 mergulhado na ditadura. “Ela não é uma figura de resistência. Não quer estar do lado dos militares, mas também não participa da luta armada”, conta. “Patrícia não tem muita consciência do que ocorre.” Mas, no momento em que ela solta a voz, o enquanto se quebra. “As músicas parecem provocar sua reflexão.”

Aos poucos, surgem as razões de se relacionar com um general. “No passado, ela foi prostituta e foi ele quem ajudou Patrícia”, explica Lilian. Por outro lado, a gratidão lhe custa. A mulher relata que é constantemente agredida pelo oficial. O ódio escoa em direção à mulher do general. “Patrícia tem inveja dela, porque a mulher frequentava o Jockey Club e aparecia na extinta revista Fatos e Fotos”, conta a atriz. E, para apaziguar tamanha tempestades, a vedete ainda mantém uma relação escondida com um militante da luta armada.

Tal ambivalência ganha catarse na voz. Em uma cena, Patrícia ridiculariza a concorrente. “Ela canta um tango bem estridente e fica imitando o modo de falar da mulher. Mas, por outro lado, ela deseja ter a mesma vida. De ser a mulher do general.” Em outro momento, Patrícia canta um samba durante a faxina no cabaré. Sua reclamação reflete a rotina dos artistas. “As políticas culturais ainda não dão conta e sobra ao artista se preocupar com a manutenção do espaço, além do ofício de criador.”

Por fim, Patrícia quase se rende ao imperialismo e cita a influência dos Estados Unidos nos anos de chumbo cantando um jazz. “Se havia toda essa dificuldade, o milagre econômico servia para distrair tantas mortes e torturas.”

Em outros trabalhos da companhia, a figura feminina permanece sob um semelhante pano de fundo. Em 2013, Cantata para um Bastidor de Utopias rendeu prêmio Shell na categoria música e direção ao retratar a história de Mariana Pineda Muñoz. A jovem foi enforcada aos 26 anos por ter desafiado o rei espanhol Fernando VII, em 1831. “Nessas montagens, há sempre uma situação hostil de repressão à liberdade das manifestações artísticas.”

Para Lilian, Patrícia é a figura dos brasileiros daquela época, simples na vocação e que ansiavam por um protagonismo no mundo. “Como tantas pessoas, ela também detém certa valentia e coragem para levar sua vida no meio de tanto perigo.”

DA COR DE CHUMBO. Casa Livre. Rua Pirineus, 107. Campos Elísios. Tel.: 3257-6652. 5ª, 6ª, sábado e 2ª, 21h; dom., 20h. R$ 10/R$ 20. Até 30/11.

 

Mais conteúdo sobre:
Teatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.