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Plínio Marcos: Uma vocação para o humano, suas dores e revoltas

Plínio Marcos costumava dizer que queria ser mesmo jogador de futebol. Embora tenha jogado até onde as pernas e a diabete deixaram, foi o teatro que lhe deu casa e comida e abrigou o seu talento de ser humano. Desde sempre, ele foi um sujeito vocacionado para o teatro – porque era vocacionado para o humano. Ninguém sem vocação para o humano tem vocação para o teatro.

Oswaldo Mendes, O Estado de S. Paulo

16 de setembro de 2015 | 07h00

Pode até ter talento, mas a falta de vocação, que, às vezes, Plínio chamava também de Ideal, leva a pessoa a se render à fama, ao dinheiro, à glória ou qualquer bobagem dessas. O ser vocacionado estava na base do seu discurso, principalmente nas palestras que fazia para estudantes. Nessas ocasiões, Vocação e Ideal eram conceitos que se confundiam nas palavras de Plínio.

Nessa vocação para o humano é que se manifestou o talento do dramaturgo, do autor de teatro, ao se indignar com a notícia de um garoto “barrelado” (currado) na prisão que, ao sair, vingou-se de cada um de seus algozes. Foi por comover-se com outro ser humano, por entender a dor e a revolta do outro, que Plínio escreveu sua primeira peça. “Juro por essa luz que me ilumina que nunca havia me ocorrido a ideia de escrever uma peça, mesmo porque, a bem da verdade, eu nem sabia escrever direito”, ele dizia exagerando a modéstia.

Alfredo Mesquita, fundador da Escola de Arte Dramática de São Paulo, não acreditava que se pudesse ensinar alguém a escrever teatro. Antes, ele ensinava, “o mais importante é o que o autor tem pra dizer”. E Plínio tinha. Depois, Mesquita sugeria que o autor conhecesse “o teatro por dentro” (como Shakespeare, Molière).

À sua maneira, Plínio conhecia desde o picadeiro do Pavilhão Liberdade aos palcos do teatro amador, em Santos. Por fim, é preciso ter urgência em dizer. Ao contrário de quem se dedica a outros gêneros, o autor de teatro escreve para os seus contemporâneos, não para a posteridade. Vencem a barreira do tempo os que alcançam um plano superior de poesia e de “invenção do humano”, para tomar emprestado o que Harold Bloom diz de Shakespeare.

E Plínio nunca escreveu olhando o próprio umbigo. Escreveu como repórter de um tempo mau. Deu voz a quem não tinha. Todas as peças depois de Barrela conservam a mesma carga de humanidade. Em todas está sempre presente um homem comovido e indignado, que se compadece a ponto de denunciar a miséria a que foram reduzidos aqueles seres humanos, seus personagens. Compadecido como quando, em uma noite de frio e chuva em Santos, deu a um mendigo a fina capa de gabardine que ganhou de presente de Natal. Plínio era então pouco mais que um adolescente. Com irresistível vocação para o humano. Assim se explica um grande autor de teatro.

Oswaldo Mendes é autor de Bendito Maldito - Uma Biografia de Plínio Marcos (ED. LEYA, 2009)

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