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Caverna.club: Uma facada amputa o futuro

Christopher Marlowe influenciou Shakespeare e chegou a ser espião a serviço da rainha, mas até hoje sua morte por uma facada em um bar ainda é um mistério

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 03h00

Christopher Marlowe era um azougue. Dramaturgo e poeta, contemporâneo de William Shakespeare, provavelmente seu maior influenciador, sofreu todos os tipos de acusação: espião a serviço da rainha, pederasta, estelionatário e, finalmente, assassino. Mas não há certeza de como era seu rosto, o que, nesta era de imagens à exaustão, já o torna único. Se vivo hoje, não faria selfies. Há um quadro encontrado no Corpus Christi College, onde estudou, na Universidade de Cambridge. E ainda assim é possível que não seja Kit Marlowe. Mas a frase no próprio quadro dá a pista: “O que me alimenta, me destrói”.

Feio

Marlowe deixou poucos rastros no mundo em que pisou. Seus passos têm sido farejados por estudiosos há pelo menos 400 anos, desde seu assassinato com uma facada em Depfort, aos 29 anos. O debate começa aí: simples briga na taverna ou queima de arquivo, algo como o homem que sabia demais, parafraseando Alfred Hitchcock? Estudou em Cambridge, bacharelado e mestrado em artes, mas com grandes períodos de ausência e vida desregrada. Pura Mondanité. A universidade (bit.ly/2DfV3QW) aponta que as despesas do rapaz com vinho eram elevadíssimas. Convenhamos, ninguém morre impunemente em um bar. Mas os melhores sinais de sua importância estão no livro The World of Christopher Marlowe, e-book (amzn.to/ 308yk26) na Amazon por R$ 52. O autor, David Riggs, professor de Stanford, esmiuçou a vida dos elisabetanos como Marlowe, Ben Jonson e o próprio impávido colosso Will Shakespeare.

Sujo

Marlowe chegou às séries. Will (2017), na AppleTV, aborda a vida do bardo Shakespeare (na pele do ator Laurie Davidson) e mostra Jamie Campbell Bower como um Marlowe incendiário, sexualizado ao extremo. Tinha fama. Não à toa esses dramaturgos elisabetanos são os primeiros melhores exemplos de criação de coletivos em arte. Um metia o bedelho na obra do outro, em ações colaborativas de amor e ódio. Hoje, sabe-se, sua grandeza foi a permissividade.

E malvado

Humanos se reúnem em grupos, ok, mas sempre com objetivos. Os aficionados por Marlowe criam sociedades, como manda a tradição. São assim a inglesa (themarlowesociety. com) e a americana (marlowesocietyofamerica.org). Mas imagem de um Marlowe hoje, beirando James Dean em Giant, foi emplacada por um artista inglês que escreveu um musical (@kitmusical) sobre a vida do dramaturgo; e depois criou sua versão gótica. Recuse imitações, o melhor de Marlowe está no próprio Marlowe. Suas peças e poemas mostram a potência de um gênio que influenciou e foi copiado como em Eduardo 2º, Tumbarlaine e A Trágica História do Doutor Fausto (“Foi este rosto que lançou mil barcos e queimou as torres de Troia? Doce Helena, faça-me imortal com um beijo”). Único e desconhecido.

 

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