Foto Caio Gallucci
Foto Caio Gallucci

Um segredo coloca dois casais em pé de guerra na peça 'A Mentira'

Comédia dirigida e estrelada por Miguel Falabella traz texto de Florian Zeller e atuações de Danielle Winits e Alessandra Verney

Bruno Cavalcanti, Especial para o Estadão

17 de março de 2022 | 20h00

Quando estreou em 2019, a comédia A Mentira, de Florian Zeller, encontrou no Brasil o elenco ideal para a fina ironia de sua sátira matrimonial que coloca dois casais à beira do enfrentamento por causa de uma mentira mantida em segredo. Estrelada por Miguel Falabella, Zezé Polessa, Karin Hills e Frederico Reuter, a montagem é uma espécie de continuação temática de A Verdade, também de Zeller, encenada no Brasil também em 2019, e estrelada por Diogo Vilela.

Após a estreia carioca, o espetáculo seguiu em turnê interrompida pela pandemia, e agora retorna a São Paulo. No elenco, Hills, que volta aos palcos na nova temporada de Summer – Donna Summer Musical, já havia sido substituída por Alessandra Verney, mas, nesta nova temporada, em cartaz desde o dia 4 de março, no Teatro Claro, Zezé Polessa dá lugar a Danielle Winits.

A atriz assume o papel da mulher do personagem de Falabella, amigo de fé com quem já desenvolveu trabalhos na TV, no cinema e no teatro, entre eles a mais recente montagem do musical Os Produtores. “Estar ao lado do Miguel num palco é e sempre será sinônimo de uma experiência sagrada e abençoada”, afirma a artista. 

“O tanto que cresço, que aprendo com sua maestria atuando, dirigindo e nos conduzindo ao mesmo tempo, e o tanto que me desafio colocando à prova todas as minhas possibilidades enquanto soldada do meu ofício são presentes incontáveis que só solidifica minha árdua escolha como artista num país tão necessitado de cultura e evolução de pensamento coletivo”, conceitua.

 

De volta à comédia

A Mentira marca o retorno de Winits à comédia após duas passagens pelos palcos em dramas nos quais deu vida à estrela Marilyn Monroe em Parabéns, Senhor Presidente e Depois do Amor, último trabalho dirigido por Marília Pêra. “Me faz um bem danado fazer do mundo ao meu redor um lugar mais leve, onde a gente possa optar pela liberdade de rir mesmo que em momentos mais difíceis, e por vezes contraditórios. Ser mola propulsora ao drenar o negativo e dele colher algo positivo. Semear e colher uma gargalhada me alimenta, me traz esperança e dá a possibilidade de o outro também se nutrir de esperança.”

Com uma longa lista de papéis cômicos no currículo, a atriz lembra que foi preciso conquistá-los com muita luta. “Minha profissão abriu essa porta, mas eu tive de empurrar com uma força quase hercúlea. Para alguns, meu estereótipo não casava com o de uma ‘atriz de comédia’. Venho de uma geração em que o machismo ainda imperava muito nesse sentido. Minha intuição foi minha companheira de estrada e minha escolha foi a de manter posição e batalhar por meu lugar e travar uma luta contra ‘pré-requisitos’ estabelecidos por uma sociedade que enxergava a mulher bonita apenas como sexy e objetificada.” 

Foi, em sua visão, um ato de resistência. “Hoje, mais do que nunca, é um ato que proporciona, para além do exercício do meu ofício, a conscientização de que não existem perfis femininos. O que existe são mulheres, profissionais do ramo artístico. Atrizes que fazem o mundo rir e se emocionar.”

 

Provocação

Assim é, na visão da atriz, A Mentira, uma obra que provoca o público a uma reflexão para além do universo matrimonial. Para Frederico Reuter, a obra atinge lugares pouco acessados pelo público em geral. “O autor é muito competente em falar sobre a questão da mentira numa relação a dois e de como ela é muitas vezes necessária para se manter um casamento e ao mesmo tempo pode ser responsável por destruí-lo. É um questionamento profundo, mas feito com graça.”

Alessandra Verney pensa parecido, e acredita que a prova de que o público realmente se identifica com a obra é sua reação intempestiva. “Já vimos pessoas que foram embora do teatro ao verem o cônjuge rindo muito de determinadas situações na peça. Acho que, mesmo com leveza, os casais acabam questionando suas relações em diferentes níveis. Por mais estáveis que sejam, a ‘semente da dúvida’ vai para casa com eles após o espetáculo”, ri a atriz. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.