João Caldas
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Gabriel Villela estreia um 'Henrique IV' digital para tempos de pandemia

Diretor faz adaptação que preserva essência da obra de Pirandello, mas respira os ares do Brasil atual

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

18 de novembro de 2021 | 20h00

Como se fosse uma premonição, em novembro de 2018 o diretor Gabriel Villela, de 63 anos, estreou o espetáculo Estado de Sítio, do franco-argelino Albert Camus (1913-1960). A trama mostra os horrores causados por uma peste em um país dominado por um regime autoritário. “Acho surpreendente enxergar que, naquela obra, vieram resumidos esses dois ou três anos de aflição e tristeza que atravessamos”, comenta o encenador.

Em um Brasil ainda devastado pela pandemia, Villela volta à cena, mesmo que digitalmente, com Proto-Henrique IV, adaptação em monólogo de Henrique IV, de Luigi Pirandello (1867-1936), assinada por Claudio Fontana. O espetáculo é gratuito e segue até 5 de dezembro, de sexta a domingo, 20h, pelo Sympla.

Henrique IV, na íntegra, era o projeto de Villela para o segundo semestre de 2020, com 13 personagens defendidos, por pelo menos, dez intérpretes. Além de Chico Carvalho, Elias Andreato, Lavínia Pannunzio e Claudio Fontana, entre outros. 

A adaptação de Fontana resumiu o original em dois personagens, Matilde e Henrique IV, preservando sua essência. Carvalho se divide entre eles. Na trama, o protagonista descobre uma traição e, a caminho de uma festa, fantasiado de Henrique IV, bate a cabeça ao cair do cavalo. Bastou para acreditar ser o próprio monarca e incutir a ideia na cabeça dos outros. “Pirandello fala da nossa capacidade infinita de ser convencidos por patetas”, diz o ator. “O personagem é um zé-ninguém que reúne um grupo de atrapalhados e todos acreditam na mensagem que ele passa.”

É tudo ficção, mas, em muitos pontos, tal sinopse pode ser associada ao nosso cotidiano. “Quanto mais deixarmos Shakespeare, Pirandello e outros grandes autores serem ouvidos, mais teremos a nossa realidade ao alcance do público”, adverte. “E tendo um intérprete como o Chico Carvalho, que é um representante do verbo, do encantamento da palavra, preciso aproveitar isso.”

Chico Carvalho, de 42 anos, admirador de Villela, engata a quinta parceria com o encenador. “O Gabriel valoriza a máscara, deforma o ator o tempo todo e prega tudo o que eu acredito sob o ponto estético, filosófico e, neste momento, até político”, elogia Carvalho. 

Daqui a uns dois ou três anos, Villela planeja mergulhar no universo de Hamlet, tendo Carvalho na pele do atormentado príncipe da Dinamarca criado por Shakespeare. Antes disso, o diretor volta o foco para a montagem completa de Henrique IV, que não desistiu de levar à cena presencial. “Esse projeto atual é um proto mesmo, um estudo anterior da história para tratar desses conceitos de loucura e da sanidade, coisa que se faz tão necessária neste momento.” 

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