FOTO: DIVULGÃO/PAULA KOSSATZ
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Três textos provam a atualidade do dramaturgo Martins Pena

Em cartaz no Rio, 'O Pena Carioca' reúne peças que tratam de temas como a corrupção

Daniel Schenker / Especial para o Estado / Rio, O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2015 | 09h00

Martins Pena (1815-1848) entrou para a história do teatro brasileiro como fundador da comédia de costumes, gênero que atravessou o tempo. Influenciado, segundo o crítico Sábato Magaldi, pela observação social característica da comédia antiga, praticada no período grego por Aristófanes, e pela galeria de personagens de Molière, no século 17, Pena antecipou o realismo, a julgar pelos tipos populares que suscitam identificação no leitor/espectador. Tornou-se conhecido como autor de textos curtos, muitos estruturados num único ato. Exatos 200 anos após seu nascimento, Pena continua atual. É o que pode ser comprovado com O Pena Carioca, montagem da Cia. Atores de Laura, dirigida por Daniel Herz, em cartaz, desde sábado, 5, no Teatro Poeira, no Rio.

A encenação, sem previsão para desembarcar em São Paulo, reúne três peças de Martins Pena, todas apresentadas na íntegra: A Família e a Festa na Roça, O Caixeiro da Taverna e O Judas em Sábado de Aleluia. Na primeira, uma moça quer casar com um estudante de medicina, enquanto sua família insiste num matrimônio arranjado; na segunda, um caixeiro ganancioso sonha virar sócio da loja onde trabalha e, por isso, oculta da dona do estabelecimento, uma viúva apaixonada por ele, a informação de que é casado; e na terceira, um jovem chega para se encontrar com uma moça, mas, ao se deparar com um pretendente mais rico, se esconde no boneco de Judas e testemunha conversas reveladoras do caráter de vários personagens. Nas transições entre as peças, os atores (Ana Paula Secco, Anderson Mello, Gabriela Rosas, Leandro Castilho, Luiz André Alvim, Marcio Fonseca e Paulo Hamilton) dirão frases de Martins Pena. 

Herz utilizou como critério para a escolha dos textos a possibilidade de traçar paralelos com os dias de hoje. “A Família e a Festa na Roça traz à tona o conflito entre a vontade individual e a da família. O Caixeiro da Taverna fala sobre o que se é capaz de fazer para concretizar a ambição. E O Judas em Sábado de Aleluia parece questionar se o desejo por mais de uma pessoa é narcisismo. Também é a mais politizada das peças, pois chama atenção para a corrupção, mostrando a semente do que vivemos hoje”, explica Herz. 

De qualquer modo, o diretor não perde de vista as diferenças entre passado e presente. “Antigamente, havia uma ingenuidade mais vibrante. Hoje, estamos num mundo globalizado. A vantagem de agora é que a corrupção e a falta de ética aparecem mais. Por outro lado, há um excesso de conexão entre as pessoas, o que produz estresse constante.” O espírito da época será evocado pela direção musical de Leandro Castilho, que assumiu essa função em montagens anteriores – O Barbeiro de Ervilha e As Bodas de Fígaro, ambas ligadas ao terreno da ópera, assinadas por Daniel Herz, mas realizadas fora da companhia. 

O Pena Carioca, em cartaz até 25 de outubro, é novidade na trajetória da Cia. Atores de Laura, que parte para a encenação de uma peça brasileira. O grupo, há 23 anos em atividade, já investiu em criações coletivas, adaptações de livros e eventuais montagens de textos estrangeiros. “Geralmente, nós nos inspiramos num determinado autor, investigamos sua obra e concebemos uma estrutura específica. Decote, por exemplo, veio do universo de Nelson Rodrigues; Absurdo, de Ionesco; e Adultério, de Pirandello”, cita ele.

O grupo encenou poucas peças fechadas – casos de Conto de Inverno, de Shakespeare, e As Artimanhas de Scapino, de Molière. Recentemente, transportou para o palco livros de Cristóvão Tezza – O Filho Eterno e Beatriz. “Por isso, decidimos buscar peças originais nesse momento.” Depois de O Pena Carioca, a companhia abraçará mais um desafio: a encenação de Ubu Rei, de Alfred Jarry, com Marco Nanini, no próximo ano. 

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