Nana Cipola
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Três textos expõem conflitos e lutas femininas

Angela Figueiredo e Fernanda Cunha protagonizam peças escritas por autoras que despontaram na última década

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

28 de dezembro de 2021 | 05h00

As atrizes Angela Figueiredo, de 60 anos, e Fernanda Cunha, de 38, se conheceram em 2010, durante o Festival de Peças de Um Minuto, no Espaço Parlapatões. Os cafés imediatos mostraram que não se tratava de conversa fiada de camarim. Mas a estreia de As Moças: O Último Beijo, peça de Isabel Câmara (1940-2006), dirigida por André Garolli, só se deu em 2014. A empreitada inicial da dupla, sem qualquer patrocínio, no entanto, rendeu dois anos de apresentações sustentadas por muita disposição e a certeza de uma trilha pertinente a seguir. 

Assim foi fundada a Cia. de Teatro As Moças que, na sequência, produziu Noites sem Fim (2016), drama da inglesa Chloë Moss, e Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã (2018), de Antonio Bivar (1939-2020). Em comum, as três montagens enfocaram mulheres marginalizadas, trancadas em paredes e pensamentos. “Nunca imaginamos levantar bandeiras feministas, sempre procuramos textos com duas personagens de peso, mas percebo que contribuímos para gerar discussões em torno de uma opressão que sempre existiu”, declara Fernanda. “É um tema que não vai se esgotar e se tornou nossa linha de pesquisa porque a temática nos alimenta profundamente”, completa Angela.

A comemoração dos dez anos do encontro de Angela e Fernanda sofreu os impactos da pandemia. O desejo, porém, foi mais forte que a crise e se concretiza com o projeto audiovisual Mulheres Confinadas e À Margem da Sociedade. O carro-chefe é o espetáculo digital Relações Indóceis, que entrou no canal do YouTube de Angela Figueiredo.

Produção

Trata-se de um filme dirigido por Henrique Stroeter, formado por três peças curtas, Mãe Só Tem Uma, Não Pare, Não Corra, Não Grite, Não Morra e Bainha, escritas por dramaturgas que despontaram na última década.

Sob o comando de Stroeter, marido de Fernanda, as filmagens foram realizadas em um sítio do casal em São Francisco Xavier, no interior paulista, entre julho e outubro. Angela ressalta a importância de estabelecer um contraponto às montagens anteriores, já que duas das peças da companhia foram escritas no fim dos anos de 1960 e uma terceira, apesar de contemporânea, traz o ponto de vista de uma autora inglesa. “Queremos mostrar o que as mulheres escrevem hoje e como retratam nossos conflitos até porque atravessamos um momento em que, depois de tantos avanços, perdemos muito do que alcançamos”, diz. 

Escrita por Vana Medeiros, Mãe Só Tem Uma promove o inusitado diálogo de uma mulher madura (interpretada por Angela) e sua mãe (vivida por Fernanda), que morreu aos 37 anos e não acompanhou o crescimento da filha. Não Pare, Não Corra, Não Grite, Não Morra, de Michelle Ferreira, mostra uma senhora de temperamento hostil (Angela), exilada em uma casa de campo, que, contrariada, recebe a visita de uma jovem grávida (Fernanda). Por fim, em Bainha, de Angela Ribeiro, uma noiva (Fernanda) desvenda o passado dos seus pais através de uma velha conhecida (Angela), que ajusta o seu vestido de casamento.

 

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