Trajetória de Donna Summer é base de musical dirigido por Miguel Falabella

Espetáculo conta com três atrizes interpretando a Rainha da Disco Music

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo

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Em um momento dos anos 1980, o produtor e compositor Giorgio Moroder perguntou para a cantora Donna Summer como ela imaginava que seria o mundo dali dez anos. Ela refletiu um pouco antes de dizer: “Não sei dizer, mas tenho certeza que as pessoas vão estar dançando muito”. Havia argumentos de sobra para essa afirmação: naquela época, ela ostentava o título de Rainha da Disco Music, com canções cuja batida de sintetizador foram criadas por ele. Donna foi a primeira artista a ter três álbuns duplos consecutivos a atingir o primeiro lugar nas paradas dos EUA.

3 Donnas. Karin Hils (E), Jeniffer Nascimento e Amanda Souza Foto: Nilton Fukuda/Estadão

É a história desse sucesso - e também de fracassos pessoais - que trata Donna Summer Musical, que estreia no dia 5 de março, no Teatro Santander. Trata-se de uma versão livre de Summer: The Donna Summer Musical, que estreou na Broadway em 2018, mas não cumpriu uma temporada de sucesso. “Porque não trazia o espírito da época”, justifica Miguel Falabella, diretor-geral da montagem nacional. “O mais importante desse espetáculo é o impacto que ela causou na sociedade.”

Falabella entrou no projeto quando os detentores dos direitos do musical autorizaram uma versão livre. A partir daí, ele criou o seu conceito da montagem. “O que me inspirou foi aquela bola de espelhos das discotecas”, explica. “Cada um desses quadradinhos reflete uma história e o conjunto delas nos conta como aquele período foi marcado pela utopia da liberdade do corpo.”

Filosofia à parte, o encenador apostou em uma montagem mais alegre, vistosa, colorida. A começar pelo cenário de Zezinho e Turíbio Santos, que reproduz uma discoteca, e pela iluminação de Caetano Vilela, uma profusão de cores primárias. “Será como encher o palco de jujubas”, brinca o encenador. E, no centro disso, uma cantora inigualável. “Na época, as pessoas não davam valor à dimensão real da potência daquela voz, até hoje exuberante”, continua Falabella que, ao escalar as três atrizes que vivem Donna Summer em distintos momentos, foi preciso.

Assim, a Jovem Donna é interpretada por Amanda Souza, jovem soprano que ele conheceu no fim do ano passado, quando dirigiu a ópera A Viúva Alegre. “Meu primeiro desafio foi deixar o canto lírico para descobrir o específico de musicais”, conta ela, que precisou de quatro aulas até conseguir abaixar o registro de sua voz para chegar ao Belting, como é conhecida a técnica de canto utilizada nos musicais.

A dedicação é necessária - Donna Summer (que morreu em 2012, aos 63 anos, de câncer no pulmão) ostentava uma voz aveludada de impressionante extensão, permitindo que ela cantasse de spirituals e R&B mais soft a pop e new wave, sem se esquecer da disco music, cujos fundamentos foram lançados em canções interpretadas por ela. “Donna também trazia uma música luxuriante, que foi vanguardista por trazer, nos anos 1970, uma expressão física libertadora”, conta Falabella, que denomina essa fase de muitos sonhos e esperança como “utopia de plástico”, ou seja, eufórica, mas frágil.

A cantora Donna Summer em abril de 2000 Foto: REUTERS/Jeff Christensen

Em sua segunda fase de vida, a cantora é designada no musical como Disco Donna, quando é interpretada por Jeniffer Nascimento, dona de uma voz cuja afinação e fôlego são impressionantes. É perfeita para personificar a Donna Summer (o sobrenome foi uma adaptação de Sommer, que ela ganhou ao se casar com um austríaco) que explodiu no mundo nos anos 1970. “Foi quando Donna se transformou em estrela, exibindo agudos com potência”, observa Jeniffer.

De fato, foi o marco zero da carreira de Donna Summer: quando ela se uniu aos produtores Giorgio Moroder e Pete Bellotte, que acrescentaram sintetizadores às suas canções, o que não apenas potencializou sua voz como acrescentou sensualidade. Basta conferir o primeiro hit do trio, lançado em 1975 - Love to Love You ressalta o lado mais carnal da música soul, com um ritmo lânguido, orquestrações mais expressivas e, principalmente, gemidos de Donna que simulavam orgasmos.

Uma arquitetura sedutora e rentável pois, ao também ser lançado em formato estendido, o single facilitou a mixagem dos disc jockeys em festas noturnas, algo totalmente novo na época, empolgando os frequentadores das discotecas com seu arranjo com violinos e acompanhamento de guitarras. Logo se tornou um hit e alavancou a carreira da então desconhecida cantora, que se revelou ainda menina cantando em igrejas e, adolescente, lançou-se como profissional ao se mudar para a Alemanha, onde integrava o elenco do musical Hair.

A parceria com Moroder e Bellotte, aliás, progrediria e resultou em canções com arranjos cada vez mais sofisticados, que definiriam a sonoridade marcante de Donna Summer. O novo hit, I Feel Love, de 1977, logo se tornou um clássico atemporal, cuja batida inebriante seduziria, no futuro, figuras como Madonna e Moby. Dessa vez, não havia mais as cordas luxuriantes, mas uma batida que incentivava a dança graças ao sintetizador e a uma caixa de ritmos. Graças a essas modernidades, a canção é vista até hoje como marco fundamental da música eletrônica. 

A década se encerra com chave de ouro com a conquista de um Oscar de canção original por Last Dance, da trilha sonora do filme Até Que Enfim É Sexta-Feira, de 1977. Novamente, Donna exibe seu talento de reprocessar sua influência de música black para a batida pop da dance music. 

“O curioso é que ela alcançava as notas mais difíceis, mas não se via uma expressão corporal - a emoção estava na voz mesmo”, comenta Karin Hills, cuja voz poderosa torna gloriosa Diva Donna, a fase mais madura da cantora. Um momento em que a cantora já se tornara mais religiosa, sem renegar, porém, os palcos. “Até o fim da carreira, ela cantava muito bem”, comenta Carlos Bauzys, responsável pela direção musical. “E, apesar de dançante, suas canções apresentam uma incrível riqueza de harmonia.”

Como Falabella decidiu incluir intérpretes masculinos na versão nacional (ao contrário da americana, que só tinha mulheres), Bauzys precisou adaptar os vocais para os homens. E as canções são interpretadas em inglês, com exceção da que abre o espetáculo. E não poderia ser mais apropriado para apresentar Donna Summer: The Queen Is Back, a rainha está de volta.

DONNA SUMMER EM NÚMEROS

140 milhões de discos vendidos, em mais de 30 anos de carreira

5 prêmios Grammy, conquistados por diferentes gêneros: rock, dance e R&B, além de 18 indicações

1 Oscar, pela música Last Dance, trilha sonora do filme Até Que Enfim É Sexta-feira

SERVIÇO:DONNA SUMMER MUSICAL. TEATRO SANTANDER. AV. PRESIDENTE JUSCELINO KUBITSCHEK, 2.041. 5ª E 6ª, 21H. SÁB., 18H E 21H. DOM., 16H E 19H. R$ 75 / R$ 280. ESTREIA 5/3. ATÉ 28/6

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