JOÃO CALDAS
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Tradição e transexualidade se agitam em 'Imortais'

Na peça de Newton Moreno, mãe e filha brigam pela manutenção de um rito e pelo direito ao próprio corpo

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2017 | 06h00

Diante de uma produção cada vez mais progressista, parte dos artistas da cidade usa o teatro como púlpito para personagens reais que discursam sobre um cotidiano de opressão social.

Nesse caso, a população transexual parece ser o arquétipo da vez. Mas se cenas de violência a mulheres trans, vítimas da marginalidade, já se tornaram comuns nos palcos, o dramaturgo Newton Moreno foge desse artifício em Imortais, espetáculo que estreia nesta sexta, 23, no Sesc Consolação. 

Na montagem, Moreno pega emprestada a tradição da Coberta da Alma, rito fúnebre praticado no Sul do País que traz a figura do recém-falecido no corpo de algum parente vivo. “Essa pessoa se veste como o morto e fica dias na casa interagindo com a família”, explica. “A intenção é dar a oportunidade para que os familiares se despeçam e para que o espírito perceba que está morto ao ver seu familiar ali. Só assim poderá partir.”

Na peça da carioca Inez Viana, que estreia sua primeira produção originalmente paulistana, a atriz Denise Weinberg vive uma senhora tradicional a flertar com a morte e que espera que sua filha (Michelle Boesche), com quem tem uma relação ressentida, faça sua Coberta.

A força da tradição, presente nas dramaturgias de Moreno, ganha embate com a sexualidade, já que a filha vai visitar a mãe acompanhada do noivo (Simone Evaristo) um homem trans, que está em período de transição. “Newton traz essa tradição que está se perdendo e a presença do contemporâneo, marcado pela violência e machismo nos centros urbanos. Nessa dramaturgia existem aspectos do popular com a intenção de fundar uma obra erudita”, conta a diretora.

Para o dramaturgo, cada personagem está no meio do caminho, de um jeito ou de outro. A mãe que se dirige para a morte, a filha que rejeita a tradição, mas ainda não compreende seu lugar no mundo e o noivo que tem a mudança cravada no próprio corpo. “São figuras nômades, que radicalizam pontos de vista. O conflito familiar está na incapacidade de mãe e filha se colocarem no lugar da outra. O noivo então surge como uma chance de reparar as diferenças criadas anos a fio. Ele propõe um equilíbrio entre tantas demandas, enquanto segue com a transformação de sua própria constituição”, diz Moreno.

Outra peça do dramaturgo, Agreste, volta em cartaz no Teatro de Contêiner, na Rua dos Gusmões, 43, também nesta sexta, 23. A montagem traz a história de amor entre um casal de lavradores. Após a morte do marido, a mulher passa a descobrir que foi vítima do horror da intolerância e do preconceito.

IMORTAIS. Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245. Tel.: 3234-3000. 6ª, sáb., 21h, dom., 18h. R$ 40 / R$ 20. Estreia hoje, 23. Até 30/7 

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