Alex Silva|Estadão
Alex Silva|Estadão

'O Topo da Montanha' mira conflitos passados e presentes

Lázaro Ramos e Taís Araújo estão no elenco do espetáculo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2015 | 03h00

Todos podem estar em todos os lugares. E têm os mesmos direitos. Mas, estranhamente, acostumamo-nos a conviver com plateias brancas. Em São Paulo, 2015, ainda soa natural que todos os que se sentam ao seu lado sejam brancos. Como se fôssemos regidos por uma canhestra – e bem pouco razoável – lei universal de separação de corpos.

O Topo da Montanha, em cartaz no Teatro Faap, vem falar do ápice do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Época de Malcolm X, dos Panteras Negras e, em especial, de Martin Luther King. Há, portanto, uma considerável distância espacial e temporal a nos resguardar do desconforto do embate verbal travado nessa obra da dramaturga norte-americana Katori Hall. Não é difícil, porém, para quem olha ao redor, para quem observa os espectadores no escuro da sala de teatro, entender que não se trata de uma trivial visita a um longínquo episódio histórico.

A peça de Katori estreou em Londres, em 2009. Calorosamente aplaudida pela crítica, a produção logo trocou um teatrinho no circuito off pelo West End. Levou o prêmio Lawrence Olivier daquele. E logo chegou à Broadway, com Samuel L. Jackson, no papel de Martin Luther King.

Aqui é Lázaro Ramos a assumir o personagem icônico e também a direção, dividida com Fernando Philbert. Quando entra em cena, cercado por efeitos que emulam uma chuva torrencial, raios e trovões, ele entrega ao espectador o que seria um vislumbre do último dia de King, antes do assassinato em Memphis e do lendário discurso ‘I’ve been to the Mountaintop’.

No que teria pensado nessa noite? Nessa ficção, ele está em um quarto de hotel, sozinho. Tosse, combalido. E trava uma improvável batalha verbal com a camareira Camei, interpretada por Taís Araújo. Não se trata de descobrir quem está certo. Mas de evidenciar os gargalos no discurso pacifista. Assim como havia incoerências na reação violenta do movimento negro. Trata-se de um teatro de feições tradicionais, não propriamente pelo conteúdo, mas pela forma: a de uma drama calcado em conflitos entre personagens antagonistas.

Ancorada nos diálogos cheios de chistes, a atriz tempera com ironia o debate acirrado. Tal energia cáustica encontra bom contraponto na composição de Lázaro Ramos, que desenha um missionário convicto de suas ideias, mas tolerante. Correto, mas desejoso do jogo de gato e rato estabelecido com uma parceira tão improvável e sagaz.

Muito do tônus da peleja se perde quando a camareira revela sua verdadeira identidade e os propósitos de sua vinda. A mordacidade dos argumentos cede espaço a conclusões grandiloquentes e promessas de redenção. Mesmo a concepção cenográfica sublinha essa mudança de tom. O que era um quarto de hotel se expande, ganha amplitude, tomas as feições de uma antessala da morte próxima; e o uso de projeções vem sublinhar, em demasia, os já evidentes pontos de contato entre passado e presente.

 

O TOPO DA MONTANHA

Teatro Faap. Rua Alagoas, 903, tel. 3662-7233. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 18h. R$ 90. Até 13/12.

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