HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO - 4/6/2015
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO - 4/6/2015

'Todo artista tem obrigação de ir além de si mesmo para entender como o mundo funciona'

Em 40 anos de trajetória, Brad Fraser busca dar voz a outsiders e pessoas marginalizadas na sociedade, o que pode ser visto em 'Cobra na Geladeira, peça de autoria dele em cartaz em São Paulo; o canadense falou com exclusividade com o 'Estado'

Entrevista com

Brad Fraser, dramaturgo canadense

Igor Giannasi, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2018 | 05h00

Os personagens de Cobra na Geladeira são em sua maioria jovens marginalizados que precisam se virar como podem para conseguir o seu lugar em um mundo de consumismo desenfreado. Eles são outsiders aos quais o dramaturgo canadense Brad Fraser busca dar voz em 40 anos de trajetória. “Eu acredito que todo artista tem a obrigação de ir além de si mesmo e de sua própria experiência a fim de entender como o mundo inteiro funciona”, diz Fraser, em entrevista exclusiva ao Estado, por e-mail.

Na peça, em cartaz no Centro Cultural São Paulo, até 16 de setembro, sob direção de Marco Antônio Pâmio, a empresária Vivian (Violet na versão original) seduz seus jovens inquilinos a participar do lucrativo negócio da transmissão de sexo ao vivo pela internet (isso nos idos dos anos 2000). Agora os tempos são outros e o autor, que já foi chamado de bad boy do teatro canadense – rótulo que ele detesta –, vê com bons olhos a influência da tecnologia nos relacionamentos atuais. “Espero que isso seja uma coisa boa e nos leve a menos exploração dos trabalhadores do sexo”, comenta. 

Fraser já esteve em São Paulo em 2015 para fazer uma palestra e assistir à montagem de Amor e Restos Humanos, pelo grupo carioca Banquete Cultural, seu texto mais famoso, que virou filme sob direção do conterrâneo Denys Arcand em 1993. “Acho que o Brasil produz um tipo de teatro inovador e criativo que raramente vemos na América do Norte.” Veja os principais trechos da entrevista do dramaturgo. 

Cobra na Geladeira se passa no início dos anos 2000, quando as pessoas estavam se acostumando com a internet e as possibilidades das novas tecnologias para se conectar entre si, e hoje nós temos, por exemplo, até mesmo aplicativos de encontros nos nossos telefones. Na sua opinião, como os relacionamentos em geral têm se desenvolvido desde então?

Acho que as pessoas agora têm mais controle do comércio sexual por causa dos smartphones e vários aplicativos. Violet (a personagem Vivian na versão brasileira da peça) não seria capaz de fazer o que ela faz na peça porque as pessoas estão transmitindo sexo ao vivo de seus próprios quartos e porões a toda hora agora. Espero que isso seja uma coisa boa e nos leve a menos exploração dos trabalhadores do sexo. Por outro lado, a sensação de troca de experiências e camaradagem vistas na peça não teria acontecido, o que, para mim, seria muito menos interessante.

Frequentemente, você usa os mesmos personagens em diferentes peças, como Violet (Vivian, na versão brasileira), em Pobre Super-Homem e Cobra na Geladeira, ou David (de Amor e Restos Humanos, Pobre Super-Homem e True Love Lies). Como você descreve a oportunidade, para um autor, de revisitar um personagem?

Todas as peças que compartilham personagens ocorrem no mesmo universo imaginado, diferentemente de peças como The Ugly Man e Young Art. Porque David McMillian é meu vago duplo literário, as coisas que ele está experimentando tendem a ser muito próximas das coisas que aconteceram na minha própria vida. Isso requer saltos de imaginação para compreender como ele foi de um garoto de programa adolescente a um ator, de um garçom a pintor e dono de restaurante, mas todas essas mudanças metaforicamente refletem partes diferentes da minha vida. 

Apesar de ser um autor homossexual, em seu trabalho você se preocupa não apenas com questões da comunidade gay, mas também temas relacionados a outras “minorias” – como racismo, identidade de gênero e deficiência física. Qual a importância de dar voz aos outsiders e pessoas marginalizadas?

É crucialmente importante o “outro” ser ouvido porque todos na sociedade merecem uma voz, particularmente os marginalizados e espezinhados. Também é importante que as pessoas que desfrutam de privilégio dentro de qualquer sociedade usem esse privilégio para abrir a porta para as pessoas diferentes delas. Eu acredito que todo artista tem a obrigação de ir além de si mesmo e de sua própria experiência a fim de entender como o mundo inteiro funciona, não apenas em seu segmento. O teatro pode ser muitas coisas, a arte pode ser muitas coisas, mas um sentimento de empatia e a habilidade de imaginar ou experimentar uma vida além da sua são muitas vezes a melhor maneira de fazer isso. 

Você já falou que diz o que as pessoas não querem ouvir. O que as pessoas não querem ouvir atualmente?

Nós estamos vivendo em um mundo volátil, que está sendo governado por pessoas ricas com pouca ética que exploram o medo da população em geral para nos manter inseguros e lutando pela nossa sobrevivência. A maioria da mídia ao redor do mundo é cúmplice desse controle neoliberal/conservador e nós todos estamos no ponto onde nós raramente podemos confiar no que está sendo dito, e o que está sendo feito em nome da democracia. Todo o sistema é uma farsa desenhada para enriquecer e fortalecer o 1%. Eu acho que as pessoas realmente não gostam de ouvir isso que, entretanto, eu persisto em dizer.

Como você lida com a opinião dos críticos e do público? Eles interferem em seu processo criativo de algum modo?

Eu estou sempre muito consciente das reações do público, particularmente em oficinas e pré-estreias, quando posso sentar com eles e sentir sua energia, o que está prendendo sua atenção e o que não está. Eles são as pessoas para quem estou trabalhando e se eles não estão recebendo minha mensagem é, em grande parte das vezes, minha culpa e não deles. Quanto aos críticos, se for um escritor cuja opinião respeito, leio a crítica com grande interesse, negativo ou positivo, haverá algo construtivo para ser descoberto. Infelizmente, e isso só tem ficado pior, no mundo das mídias sociais, a maioria que expressa sua opinião sobre teatro geralmente não é de pessoas interessantes ou particularmente bons escritores. Em uma carreira que tem durado 40 anos e milhares de críticas há talvez cinco ou seis “críticos” ao redor do globo que eu tenha um interesse real.

Como você se sente sendo considerado o bad boy do teatro canadense?

Eu tenho 59 anos, então, se alguém ainda se refere a mim como um garoto é um idiota. Inicialmente, eu tinha orgulho do título, mas, com os anos passando, percebi que isso tinha se tornado um jeito muito sutil e homofóbico de minimizar a mim e ao meu trabalho, como se dissesse que os assuntos sobre os quais estava escrevendo não fossem realmente dignos de consideração desde que a implicação é que estava apenas sendo “atrevido” e “provocativo” para ter repercussão. Nada disso poderia estar mais longe da verdade. 

Em que projetos você está trabalhando neste momento?

Estou trabalhando em um filme que é uma coprodução indo-canadense baseado em um dos poucos romances indianos de tema gay, escrito por um autor indiano gay assumido, R. Raj Rao, chamado O Namorado. É a história de uma malfadada relação entre um homem seguidor de Brahma (divindade do hinduísmo) e um garoto de uma casta inferior. Estive em Mumbai por duas semanas fazendo pesquisa. Foi revelador e incrível. E recentemente terminei o último rascunho da minha peça Ménage à Trois, um épico que dura décadas sobre a amizade entre um homem branco privilegiado, uma infeliz garota gorda e uma personagem trans indígena que trabalham juntos em um restaurante em 1979, se tornam amigos improváveis e fazem sexo enquanto estão bêbados na noite de ano-novo, o que deixa a garota grávida. Um aborto é procurado e as vidas deles ficam ligadas a partir daquele ponto. A narrativa é contada de uma forma fragmentada e não linear. Atualmente estou procurando um produtor para ela. 

Como foi sua experiência no Brasil em 2015? Você vem a São Paulo para ver a peça de Pâmio?

Tive um tempo incrível no Brasil. As pessoas foram maravilhosas anfitriãs e a produção de Restos foi uma das mais surpreendentes que eu já vi. Eu realmente espero ver a montagem de Cobra. Acho que o Brasil produz um tipo de teatro inovador e criativo que raramente vemos na América do Norte. Quero voltar o mais rapidamente possível.

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