Felipe Rau|Estadão
Felipe Rau|Estadão

Tiago Abravanel interpreta Snoopy em novo musical

'Meu Amigo Charlie Brown' é inspirado na famosa tirinha criada por Charles M. Schulz

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2015 | 06h00

A expectativa era grande: depois do estrondoso sucesso de Tim Maia – Vale Tudo, o Musical, que estreou despretensiosamente em 2011 e catapultou a carreira de Tiago Abravanel – afinal, sem ser cover, ele arrebatava as plateias –, qual papel marcaria sua volta ao palco? “Tim Maia foi muito marcante e eu mesmo me questionava o que viria em seguida”, conta o ator, que estava certo de duas coisas: teria de ser um personagem totalmente diferente do grande cantor e precisaria ser um espetáculo que lhe despertasse um especial agrado.

A junção dessas duas premissas resultou em Meu Amigo Charlie Brown, musical inspirado na famosa tirinha criada por Charles M. Schulz (e publicada diariamente pelo Estado), que estreia no dia 5 de março de 2016, no Teatro Shopping Frei Caneca. Em cena, Tiago vai viver Snoopy, o adorável cãozinho que reflete sobre as atitudes humanas. “Terei poucas falas, pois cachorro não fala, mas, quando está sozinho, Snoopy vai mostrar suas reflexões sobre o comportamento dos outros personagens.”

Com o papel, Tiago realiza um desejo antigo: na primeira montagem do musical no Brasil, em 2010, ele participou da audição e, apesar de aprovado, relutou em deixar o espetáculo no qual trabalhava na época, Hairspray, que também era de sua adoração. “Quando se escolhe a arte, é preciso fazer o que mais gosta”, pensou ele, que decidiu permanecer no espetáculo estrelado por Edson Celulari e Danielle Winits.

O tempo passou, Tiago tornou-se uma celebridade no palco e na TV (fez novela, Salve Jorge, e hoje é um dos destaques do seriado Chapa Quente) até descobrir que Meu Amigo Charlie Brown seria novamente montado. “Um dos primeiros nomes em quem pensamos foi o do Tiago – não só por ele ter passado na primeira audição, mas principalmente pela paixão que ele tem pelos personagens”, conta o ator Leandro Luna, que não apenas vive Charlie Brown no espetáculo, como é diretor de produção, ao lado de Danny Olliveira.

Snoopy é um dos mais famosos personagens de histórias em quadrinhos. Apareceu pela primeira vez em uma tirinha em 4 de outubro de 1950, criado por Charles M. Schulz (1922-2000), que utilizava o desenho de traço simples, mas preciso para discretamente revelar fatos autobiográficos (Charlie Brown é o próprio Schulz na infância) e também das pessoas ao seu redor. “Não faço psicanálise para não perder a inspiração”, dizia, ironicamente.

Ainda publicada em vários países, a tira revelou outros personagens que se tornaram emblemáticos como Sally (vivida no musical por Mariana Elisabetsky), Lucy (Paula Capovilla), Schroeder e Linus – os atores desses últimos serão escolhidos em audição, na semana que vem.

Com direção de Alonso Barros, a versão nacional é baseada na segunda versão de You’re a Good Man, Charlie Brown, de 1999, com canções originais de Clark Gesner e adicionais de Andrew Lippa. A primeira estreou off-Broadway em 1967 e somou cerca de 1.600 apresentações. Houve ainda uma remontagem em 1971 até surgir a definitiva, no final dos anos 1990.

Curiosamente, Tiago interpretaria Linus, papel para o qual disputou a audição da versão brasileira. “Quando me convidou, Luna nem pensou em outro personagem, mas, depois de um tempo, liguei timidamente e pedi para fazer o Snoopy, pois me sentia mais próximo dele”, conta o ator. “Fiz um silêncio de alguns segundos e respondi, eufórico: ‘É claro! Você é o Snoopy’”, completa Luna.

Além da semelhança na fisionomia (“Emagreci, mas ainda continuo gordinho”, brinca Tiago), há uma proximidade na personalidade. “Snoopy é crítico de tudo. Apesar de ser um cachorrinho, ele tem a sensibilidade das crianças e, ao mesmo tempo, o sarcasmo dos adultos”, observa o ator. “É acidez com ternura.”

Quase sem falas no musical, Snoopy se revela quando está sozinho. “É nesse momento, quando não há ninguém por perto, que ele canta e vive a fantasia de ser um humano.” E é justamente essa dicotomia que transforma o espetáculo em um programa para diversas idades. “Há o lado lúdico, que agrada às crianças, e alguns diálogos mais elaborados, mais perceptíveis pelos adultos”, comenta Luna.

Ele teve a ideia de remontar o musical há dois anos, quando a Fox anunciou o início de uma animação em 3D, dirigida por Steve Martino. O desenho já está pronto e estreia em janeiro de 2016. “Foi o sinal para que eu recuperasse alguns cenários e figurinos, que estavam estrategicamente guardados”, afirma Luna, que não conta apenas com o talento de Tiago Abravanel para garantir o sucesso do espetáculo – sua figura reconhecida pode auxiliar na captação de patrocínio, que ainda não está fechado.

“Fico feliz em poder ajudar, pois sei que as produções de musicais, por causa da crise, enfrentam sérios problemas de realização”, conta o ator, que, com o reinício das gravações de Chapa Quente depois do carnaval, terá de adequar os horários de ensaios. “Por isso, já vamos começar em janeiro para depois apenas acertar detalhes”, explica ele, que espera novamente por um espectador especial: seu avô, o apresentador Silvio Santos.

“Não é fácil tirar o homem de dentro de casa”, brinca ele, que precisou esperar oito meses até que o avô o prestigiasse em Tim Maia. Tiago conta que Silvio é discreto nas críticas. “Ele observa tudo, mas não se aprofunda nos elogios nem nos detalhes negativos.”

Tiago sabe estar diante de outro grande desafio – desgrudar-se do personagem que o projetou nacionalmente. “Ainda recebo ligações pedindo show do Tim”, observa o ator. “Mas estou preparado e motivado.”

MEU AMIGO CHARLIE BROWN

Teatro Shopping Frei Caneca. R. Frei Caneca, 569, tel. 3472-2229. Em março: sáb. e dom., 17h30 e 20h. Abril: sáb., 15h e 17h30, dom., 16h. Preços a definir. Estreia 5/3/2016

 

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Schulz criou personagem mais sensato que muito adulto por aí

Vez ou outra, é fácil se deparar com alguma tirinha ou imagem de Charlie Brown e seu cachorrinho, o beagle Snoopy, em alguma rede social. A mais recente a circular por aí é uma imagem na qual o dono e seu cão, sentados lado a lado, miram o horizonte. "Algum dia, todos nós iremos morrer, Snoopy", diz Brown. O cachorrinho, responde (ou pensa): "Verdade, mas todos os outros dias, não".

Há um quê de autoajuda, é claro, e muito provavelmente por isso as tirinhas criadas por Charles M. Schulz em 1950 sejam tão difundidas em meio sociais supérfluos e vazios. Basta um olhar mais apurado, contudo, para se perceber a sensibilidade e sensatez inumanas que transbordam o papel e transcendem a idade do leitor.

Schulz é simples no traço, profundo no conteúdo. Influencia toneladas de outras tirinhas há mais de seis décadas porque é capaz de trazer reflexões sobre o tal "sentido da vida" e relacionamento humano em três quadrinhos.

Charlie Brown e Snoopy são figuras eternas da cultura pop. O ar sempre tristonho do garotinho, apaixonado por uma garota da escola, inspirou a criação do site This Charming Charlie, uma junção dos desenhos de Schulz e as letras melancólicas de Morrissey e seu Smiths. O cachorrinho, por sua vez, é dono da voz mais consciente daqueles desenhos. Oferece, mesmo que em pensamento, certezas mais coerentes do que muito adulto por aí. / PEDRO ANTUNES

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