Gal Oppido/Divulgação
Gal Oppido/Divulgação

Texto inédito de Plínio Marcos revela-se autobiográfico

Em 'O Bote de Loba', uma taróloga dá consulta e seduz jovem deprimida

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

19 Novembro 2016 | 03h00

Diante de um baralho disposto sobre a mesa, a mulher desesperada tremula a mão como se isso garantisse uma boa resposta. Ao puxar qualquer uma do meio, ela não imagina que a gravura de uma torre revelada remontaria o monumento construído em Babel. Em São Paulo, ela poderia se chamar Edifício Copan, tirando a parte de que a torre foi destruída por deus. 

Quem está do outro lado da mesa, em seu apartamento no prédio concebido por Oscar Niemeyer, é Plínio Marcos. A experiência do dramaturgo com o mundo místico do tarô resultou em O Bote da Loba, espetáculo inédito em cartaz no Teatro Garagem. Escrita em 1997, dois anos antes da morte do santista, a peça aborda a sexualidade feminina no encontro entre uma mulher desesperada e uma taróloga. “Acredito que o texto seja bastante autobiográfico porque ele recebia pessoas, principalmente mulheres para tirar cartas e dar conselhos”, explica a atriz Anette Naiman, que vive a maga Veriska.

É em uma sala defumada por incensos que ela se junta à atriz Luciana Caruso para ambientar uma conversa mística e sensual. De maneira distinta dos outros textos do autor, Luciana aponta que a peça tem um ritmo diferente. “A estrutura é composta de longas falas e um tempo mais desacelerado, embora intenso”, justifica, em referência à primeira cena em que a jovem Laura despeja seu desespero, as terríveis enxaquecas e a frustração de ter passado por inúmeros médicos e hospitais sem que o problema fosse ao menos diagnosticado.

O início da peça traz essa dor e exige pesadas lágrimas da atriz, que contracenou com Anette no espetáculo Vendidas, com texto de Leo Lama, filho de Plínio. A peça que estreou no ano passado fez parte de várias homenagens ao aniversário de 80 anos do autor, que nasceu em 29 de setembro. “Eu interpretava uma prostituta que tentava convencer as amigas das vantagens da profissão. Agora estou do outro lado, no papel de uma mulher reprimida e que recebe uma oferta libertadora.”

Essa será a missão da personagem de Anette. Os argumentos da taróloga procuram rebater o pensamento conversador envolvendo o prazer feminino. “A mulher não goza há séculos”, afirma. “Em muitas sociedades, o prazer é tratado como direito do homem e não incomoda. Ela vai recuperar as histórias de tribos ciganas e clãs que tratam o sexo e o corpo da mulher como motivo de celebração.”

O que inquieta na montagem de Marcos Loureiro é que reside ali um mistério sobre a veracidade dos poderes da taróloga. Anette ressalta que o texto não dá pistas que provem a capacidade da maga, embora esteja claro que ela deseja o corpo mulher necessitada. “Ela conta essas histórias para convencer a moça, embora pode ser que ela seja uma charlatã. No entanto, Veriska oferece um caminho de libertação. Isso é o que a carta da torre vai revelar: Laura está aprisionada e precisa romper com essa couraça.” 

Ao tratar dessas questões, Luciana enxerga que a montagem recupera o atual Brasil nesse hiato de quase 20 anos desde a criação da peça. “Estamos vendo muita atenção dada às belas esposas de políticos. Nós sabemos que relação são essas. Talvez pela primeira vez, Plínio colocou uma mulher rica em suas peças. Uma vez, ele disse que achava suas peças datadas, mas sempre vou discordar.” 

O BOTE DA LOBA. 

Teatro Garagem. Rua Silveira Rodrigues, 331. Tel.: 99122-8696. 6ª, sáb., 21h. R$ 40 / R$ 20. Até 17/12.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.