Leekyung Kim/Divulgação
Leekyung Kim/Divulgação

Texto do dramaturgo inglês Mike Bartlett estreia no Rio

Peça faz reflexões sobre conflitos geracionais

Roberta Pennafort, Impresso

18 Janeiro 2017 | 03h00

RIO - Um rapaz e uma jovem se apaixonam em 1967, num ambiente de paz, amor e liberdade, bem no clima de All You Need Is Love, hit romântico autoconfiante que os Beatles lançaram naquele ano. Unem-se, procriam e encaram a idade adulta nas nada fáceis décadas seguintes. Seus filhos crescem e chegam ao século 21 sem terem conseguido alcançar o que almejavam na vida. Love, Love, Love, premiada peça de Mike Bartlett que estreou em 2010, se passa em Londres, mas o cenário poderia ser Rio, São Paulo ou qualquer outro lugar onde baby boomers tenham plantado seus sonhos – e colhido desencanto.

Na quinta, 19, no teatro do Oi Futuro Flamengo, o texto do dramaturgo inglês estreia para convidados pelas mãos do Grupo 3 de Teatro, de Débora Falabella, Yara de Novaes e Gabriel Paiva, acrescido de Ary França, Rafael Primot e Mateus Monteiro e sob a direção de Eric Lenate. Na sexta-feira, dia 20, estreia para o público.

Criada em 2005, a companhia já havia encenado

Contrações, outro sucesso de Bartlett – que rendeu prêmios a Débora e Yara –, e se propõe a continuar investigando as relações humanas à luz de seu humor ácido. “Bartlett aproxima o público para depois afastá-lo e dizer ‘isso aqui é teatro’. Escolhe ambientes pequenos para desenvolver as histórias, mas forma um rio tão largo que vira o mundo inteiro”, define Yara.

O espetáculo tem três grandes atos: 1967, quando o casal Sandra e Kenneth se encontra; anos 1990, quando seus filhos, Rose e Jamie, são jovens; e 2014, quando todos se reúnem e confrontam suas trajetórias até ali, escancarando todos os conflitos geracionais possíveis.

A conjuntura política, econômica e social de cada época permeia os diálogos claros e certeiros criados por Bartlett. É sua forma de mostrar como as personagens são produtos de seu tempo, e mais: como uma geração e suas experiências são formadoras das que vêm em seguida, o que se repete ad infinitum nas famílias. “É um texto muito potente, parece uma saga. Espero que o público mergulhe naquela insanidade toda como nós fizemos. Não dá para ficar alheio a tantas fricções”, acredita Lenate. A arquitetura do texto é muito importante, diz o diretor, por ditar o ritmo das falas, por meio de pausas e sobreposições entre as personagens.

Sandra e Kenneth começam como dois universitários típicos da era hippie. Quando a ação dá uma salto, eles já são um casal yuppie de classe média, prestes a se separar, e que se concentra mais na busca da própria felicidade do que na dos filhos. O clímax é a reunião familiar em que Rose, que estudou música e não prosperou, se diz, aos 37 anos, decepcionada com o pouco que conquistou.

Ela então questiona a forma como foi criada – com muita liberdade, mas sem uma orientação de qual caminho seguir. “Ela é de uma geração que ficou sem rumo, sem esperança. Mas Bartlett não aponta culpas. Os pais sempre tentam acertar.”

Love, Love, Love foi o primeiro texto de Bartlett que o Grupo 3 de Teatro leu. A montagem agora, num momento de transformações no horizonte político-econômico-social no Brasil e no mundo, lhe pareceu ideal.

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