WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Tenor Thiago Arancam inicia o desafio de ser o protagonista de ‘O Fantasma da Ópera’

Fantasma da Ópera, um dos mais queridos e bem sucedidos musicais de todos os tempos, ganha nova temporada no Brasil a partir do dia 1º de agosto, no Teatro Renault

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2018 | 06h01

O tenor brasileiro Thiago Arancam estava com um plano bem definido para os próximos dois anos com a turnê Bela Primavera, em que interpretará clássicos da música internacional que fazem parte de sua memória afetiva. Aos 36 anos, dono de uma voz arrebatadora, que empolgou artistas rigorosos como Plácido Domingo e o regente Lorin Maazel, Arancam traçava seu caminho entre a ópera e canções populares quando um fato inesperado rasgou sua agenda, abrindo espaço para algo surpreendente e, ao mesmo tempo, desafiador: protagonizar O Fantasma da Ópera, um dos mais queridos e bem sucedidos musicais de todos os tempos, que ganha nova temporada no Brasil a partir do dia 1º de agosto, no Teatro Renault.

+++ Arancam tenor em ascensão

Foi tudo muito rápido. “No final do ano passado, fui apresentado ao diretor e à produtora da montagem brasileira, que adoraram quando cantei algumas canções do meu repertório e me convidaram para ir a Nova York, onde participei de uma ‘work session’ já com músicas do Fantasma.

O material foi gravado e enviado ao Andrew Lloyd Webber, que me aprovou para o papel”, conta Arancam, referindo-se ao lendário compositor inglês, autor de outros sucessos como Jesus Cristo Superstar e Cats.

Tamanho cuidado não é exagero. Há 30 anos em cartaz na Broadway, Fantasma coleciona números grandiosos – já foi visto por mais de 140 milhões de pessoas em 35 países, 160 cidades e traduzido para 15 idiomas ao redor do mundo. No Brasil, teve uma temporada de dois anos iniciada em 2005, atraindo cerca de 880 mil espectadores. Um fenômeno cultural.

Por isso, todos os recursos técnicos e cênicos de Thiago Arancam são colocados à prova, e o mesmo acontece com o restante do elenco, formado basicamente por oriundos da ópera, como os barítonos Leonardo Neiva, que será o Fantasma alternante, e Sandro Christopher (como Monsieur Firmin) e a soprano Lina Mendes (no papel de Christine). Da tradição do musical, estarão Giula Nadruz, como alternante de Christine, e Fred Silveira, como Raoul.

O musical conta a história de um desfigurado e atormentado gênio da música que assombra as dependências da Ópera de Paris, até se apaixonar pela corista Christine e decidir transformá-la em uma das maiores estrelas da ópera. Os problemas surgem quando ele encontra o namorado de infância de Christine, Raoul, por quem ela está apaixonada.

“Venho da ópera, na qual o personagem já está delineado, mas, no musical, é preciso construir esse perfil”, conta Arancam, que iniciou os ensaios na semana passada, junto do numeroso elenco de 38 artistas selecionados pela empresa produtora, a Time for Fun. “E o Fantasma é um grande desafio, pois ele é mais romântico nas cenas com Christine e mais viril, diante de Raoul. Daí a necessidade do uso dos meus recursos vocais para compor a interpretação.”

O tenor brasileiro foi aconselhado pelo diretor residente Arthur Masella, americano que acompanha produções pelo mundo para acompanhar a fidelidade à montagem original, a não assistir a nenhuma interpretação do Fantasma. “Crie o seu personagem”, disse-lhe. Assim, na viagem que fez a Nova York, onde se encontrou com o diretor original, Harold Prince (veja mais abaixo), Arancam só conversou com o atual Fantasma da Broadway, Fred Crawford, no camarim.

“Ele me disse para ficar atento com a máscara, nas rápidas trocas de figurino.”

A máscara, que esconde a face deformada do Fantasma, é objeto essencial. Cada protagonista tem um modelo forjado aos seus traços e, enquanto o seu não fica pronto, Arancam ensaia com uma substituta para se acostumar. “É um importante elemento cênico”, observa. “Arthur me disse que, quando olho para baixo, a máscara ajuda a construir uma expressão, que é diferente de quando olho para cima.”

Preciosa também é a dica de Saulo Vasconcelos, que foi o Fantasma em 2005: “Aprenda a ser paciente com a maquiagem, que é demorada e passa a nos deixar impaciente com o correr da temporada”.

Tais detalhes não escapam a Arancam, que iniciou a carreira despretensiosamente, aos 6 anos, quando venceu um concurso escolar. Em seguida, ingressou em um coral infantil, no qual descobriu o fascinante universo da música clássica. Foi o início de uma carreira meteórica, que inclui participação na Academia de Canto Lírico do Teatro Alla Scala, em Milão. Viveu com vigor personagens de óperas famosas, como Radamés (Aida), Pinkerton (Madama Butterfly) e Alfredo (La Traviata). “Fiz também Cristiano, em Cyrano, ópera que, como no Fantasma, traz um homem sensível, mas incomodado com seu defeito”, completa ele, que ainda encontra brechas para continuar com a turnê de Bela Primavera – a estreia acontece no dia 1º de setembro, em Belo Horizonte.

Dicas preciosas do diretor original do espetáculo

Com os óculos apoiados no alto da cabeça (sua marca registrada, eternizada até em uma caricatura do grande Al Hirschfeld), o diretor Harold Prince recebe o tenor brasileiro Thiago Arancam com curiosidade. O encontro acontece no escritório de Prince, em uma das torres que formam Rockefeller Plaza, em Nova York.

Aos 90 anos, Hal (como gosta de ser chamado) é uma lenda na Broadway – sua assinatura está associada a grandes musicais em mais de meio século de carreira, desde West Side Story, passando por Cabaret, Company, Follies (que considera seu preferido), Sweeney Todd, Evita e, claro, O Fantasma da Ópera. Montagens que lhe garantiram, no total, 21 prêmios Tony, o Oscar do teatro americano, um recorde.

A sala recheada de fotos históricas não intimida o cantor brasileiro que, experiente em ópera, revela um pleno entendimento do Fantasma, justamente um dos mais operísticos musicais que se tem notícia. Quando Arancam cita semelhanças da angústia de seu atordoado personagem com os de óperas como Carmen, de Bizet, e Pagliacci, de Leoncavallo, Hal abre um sorriso – o intérprete brasileiro está no caminho certo.

Prince é diretor do Fantasma desde a estreia, em Londres, em 1986. E, desde então, passando principalmente pela chegada na Broadway, dois anos depois, a estrutura da montagem se manteve praticamente intacta. “Porque se trata do mais puro exemplo de entretenimento”, diz o diretor ao Estado.

“São vários fatores que transformam o Fantasma em um espetáculo popular. Primeiro, seu romantismo. Depois, a afeição que o personagem desperta no público que, sem perceber, passa da aversão por um homem deformado para a compreensão de seu amor – a mesma modificação sofrida por Christine. É a mesma reação que temos, por exemplo, ao assistir a O Homem Elefante: por trás da deformidade, há um ser humano.”

A camaradagem entre diretor e intérprete cresce a passos largos, mesmo que o encontro seja breve. Arancam arranca novo sorriso do diretor ao entoar um trecho do Fantasma, em português. Naquele momento, é possível notar que Hal não apenas aprova a escolha do tenor para o papel (na prática, isso aconteceu antes, envolvendo o produtor Cameron Mackintosh e, principalmente, o criador do espetáculo, Andrew Lloyd Webber) como ainda sugere qual papel Arancam deveria interpretar.

“Faça Sweeney Todd, um musical melódico e romântico”, diz ele que, não satisfeito, oferece como presente um vinil com a trilha do espetáculo criado por Stephen Sondheim. “Ouça. Você vai ver que é a sua cara.” 

O FANTASMA DA ÓPERA

Teatro Renault 

Av. Brigadeiro Luis Antônio, 411. 4ª à 6ª, 21h. Sáb., 16h e 21h. Dom., 15h e 20h. 

R$ 75 / R$ 300. Até 16/12. Estreia 1/8

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