Acervo Pessoal
Acervo Pessoal

Tempo camuflou o maior delito de Wilson Simonal e criou um gênio injustiçado

Cantor foi vítima da loucura que deixou tomar a cabeça ao se deparar com o poder inquestionável que exercia diante das massas

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

09 de junho de 2015 | 03h00

A história foi muito generosa com Wilson Simonal. Sua imagem hoje é a de um homem injustiçado, banido da terra dos gigantes por um ato que não cometeu, deixado no ostracismo da vida pública por uma invenção da imprensa, vítima do preconceito que não admitia um negro com talento e autoconfiança, desprezado por uma classe artística que nunca fez nada para defendê-lo. E, então, quando se descobriu que Simonal nunca foi delator, que nunca entregou amigos ao Dops como se acreditou por anos, ele foi automaticamente beatificado. E esse é o maior equívoco da história.

Pior do que seria caguetar parceiros, Wilson Simonal mandou dois colegas do Dops “pegar” um homem chamado Raphael Viviani, um ex-contador que despertou a ira do chefe ao processá-lo por questões trabalhistas. E quando se pedia para que dois brutamontes do Departamento de Ordem Política e Social “pegassem” alguém em 1971, era de se supor que não seria para passar uma noite de carícias. Depois de tentarem arrancar sua confissão a socos, eles trouxeram um telefone com fios desencapados. Enrolaram as pontas em seus dedos, colocaram outra em sua língua e giraram a manivela até seu corpo se contorcer com a descarga elétrica. Como ainda assim ele não confessava o roubo, conforme conta o próprio Viviani no raro depoimento colhido pelo documentário Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de 2009, passaram a ameaçar sua família. Sua resistência então baixou e ele decidiu criar uma história coerente e assinar a confissão. Simonal, conforme diz, esteve no Dops e viu seu estado. “Mas como ele não teve pena de mim, eu jamais tive pena dele.”

O ato da encomenda do serviço sujo feito por Simonal, pelo qual ele nunca foi socialmente cobrado, apesar de sua condenação pela Justiça à época, já seria o suficiente para enterrar qualquer carreira. É só fazer um rápido exercício. Esqueça o Dops e a própria ditadura. Imagine agora Roberto Carlos mandando dois capangas encherem um ex-funcionário de tabefes até ele dizer onde foi parar o dinheiro que parece ter sido roubado de seu escritório. E que, além dos tabefes, os capangas resolvessem colocar o homem no pau de arara ou algo parecido. As músicas de Roberto estariam tocando, mas onde estaria Roberto Carlos?

A história também instrumentalizou Wilson Simonal. O fez primeiro, e injustamente, um alcagueta a serviço do regime para justificar seu linchamento, um Judas necessário para abastecer a sanha da esquerda. E mais tarde, rendendo-se à força de seu repertório, o reavaliou, também injustamente, santificando-o como um gênio injustiçado. Simonal foi vítima de si próprio, da loucura que deixou tomar a cabeça ao se deparar com o poder inquestionável que exercia diante das massas. O que seria só um ego robusto e tolerável cresceu contaminado pelo dinheiro e pela fama e o conduziu ao processo autodestrutivo quando chegaram os anos de solidão. Simonal reclamou por três décadas quando também deveria agradecer aos céus: Raphael Viviani não morreu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.