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Teatro Kabuki revela o código de seus movimentos

O fascínio de reconhecer as diferenças nas técnicas de abrir a mão, pender a cabeça, distender os braços

Helena Katz, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2015 | 05h00

Para assistir a um artista como Fujima Kanjuro VIII é preciso enfrentar a questão que Edward Said já tratou no seu livro Orientalismo (1978): não cabe lidar com outras culturas sem lembrar que o que delas sabemos é fruto das relações entre poder e conhecimento – hoje, bastante globalizadas. No seu caso, a tudo isso se agrega o fato de que o “oriente” do qual falamos não passa de uma invenção desse lugar que chamamos de Ocidente. Sem nenhuma familiaridade com a sua arte, a maioria de nós não sabe distinguir kabuki de su-odori, nem tampouco situar a relação do kabuki com o Nihon buyo (a dança tradicional japonesa) ou o papel da Escola Fujima, do qual ele é agora o representante mais ilustre, nesse cenário complexo.

No Japão, a Escola Fujima é considerada uma das 5 mais importantes, entre as cerca de 200 que se dedicam à dança tradicional japonesa. Começou no período Edo e o nome ‘Kanjuro’ vai passando pela sua família desde 1700. Ele o recebeu em 2002, aos 22 anos, no 13.ª aniversário da morte do avô, Fujima Kanjuro IV, coreógrafo e dançarino tão aclamado que recebeu a condecoração Living National Treasure (Tesouro Nacional Vivo) do governo japonês.

Fujima Kanjuro VIII prefere ser apresentado como coreógrafo de kabuki (furitsuke-shi), mas é preciso não confundir com o que por aqui entendemos como coreógrafo. No kabuki, as coreografias não pertencem às famílias de atores de kabuki, mas às famílias de Nihon buyo e cada família ensina os passos básicos das danças que detém. Assim, quando atores de kabuki vão apresentar uma obra que inclui coreografia de Dojoji, precisam ir para a Escola Fujima, pois essa dança pertence à família Kanjuro. 

O coreógrafo de kabuki se assemelha ao que aqui se chama de diretor artístico porque, além de conhecer os passos da dança, precisa ter um sólido conhecimento de tudo o que a cena envolve (figurino, luz, música, objetos, perucas, canto, atuação) para ser respeitado por todos os envolvidos, inclusive o pessoal técnico. E isso tem um peso bem maior quando se sabe que no kabuki, todos os participantes praticam separadamente e só se juntam 3 dias antes de o espetáculo acontecer. O coreógrafo é mais um entre o pessoal das coxias, e nunca vem para a luz do palco.

Sua arte é avaliada pela capacidade em trazer o melhor de cada ator, o que implica saber ajustar esse ensino ao físico, à personalidade e aos maneirismos, que são únicos em cada um deles, uma vez que a codificação dos movimentos não está congelada. O ator está sempre em primeiro plano. E há uma diferença com os diretores ocidentais, pois no kabuki, as decisões finais sobre as suas partes específicas cabem aos atores. 

Para nós, que não sabemos sequer reconhecer as diferenças nas técnicas de abrir a mão, pender a cabeça, distender os braços ou a angulação precisa entre o quadril e os joelhos levemente flexionados que distinguem os modos do andar que desliza, que não sabemos ler os códigos de quimonos, perucas, objetos, só podemos adentrar no campo de atuação de Fujima Kanjuro VIII alertas da distância cultural que dele nos separa. 

É um privilégio ser introduzido pelo oitavo grão-mestre do estilo Fujima, considerado hoje a maior autoridade em odori. E neste programa, temos a oportunidade de vê-lo nas duas habilidades que o consagraram. Dança um solo (Sanba-so) e faz 3 papéis diferentes com a sua companhia, trocando de figurino (Príncipe Nyo-sui, Sacerdote Shu-rou e o Sacerdote Ishi-gumo, que é a Grande Aranha), em uma coreografia sua, A Lenda da Aranha da Terra ou O Sacerdote Ishi-Gumo e a Princesa-Fada Shira-Giku.

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