LIGIA JARDIM/DIVULGAÇÃO
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Teatro da Vertigem estreia ‘O Filho’, que atualiza a discussão de Kafka em ‘Carta ao Pai’

Montagem da peça entra em cartaz em São Paulo no dia 2 de julho

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

24 de junho de 2015 | 03h00

A paternidade desponta como um fardo para Bruno – se, de um lado, é obrigado a lidar com a liberalidade do pai, por outro, sente-se incapaz de controlar o próprio filho, Hermann, que se joga no mundo das drogas. “Atualmente, não existe mais hierarquia. Hermann era um homem forte, mas agora as relações são mais líquidas”, atesta Eliana Monteiro, que dirige O Filho, novo espetáculo do Teatro da Vertigem, que vai ocupar o enorme galpão do Sesc Pompeia a partir do dia 2 de julho.

Inspirado no livro Carta ao Pai, de Franz Kafka (1883-1924), que a escreveu (mas não a enviou) em 1919, o espetáculo oferece um eloquente estudo sobre a fragilidade da paternidade moderna. “Se, na época em que Kafka escreveu, era sólida, hoje reina a liberdade absoluta”, continua Eliana, que trabalha de forma precisa essa relação cada vez mais tênue. “Hermann, o filho de Bruno, quer cobrar o pai, mas não consegue.”

Com dramaturgia de Alexandre Dal Farra e elenco formado por Antônio Petrin, Mawusi Tulani, Paula Klein, Rafael Lozano e Sergio Pardal, O Filho é mais um passo do Teatro da Vertigem em trabalhar com textos de Kafka – com Kastelo, de 2010, o grupo já investigava os caminhos percorridos pelo escritor sob um olhar mais moderno. E agora, se o original do escritor checo expõe um tardio acerto de contas com um pai autoritário, a versão de Dal Farra repensa o livro e propõe uma nova atitude, com a figura paterna não sendo mais cobrada pela sua tirania, mas por insistir, por exemplo, em voltar a ser um filho. 

A relação, assim, torna-se mais visceral, “a hereditariedade revela um sangue contaminado”, no entender da diretora que, seguindo a proposta que sempre sustentou os espetáculos do Teatro da Vertigem, criou sua encenação para o galpão de 500 m² do Sesc Pompeia. Nenhuma novidade por se tratar de um grupo acostumado a subverter a dramaturgia tradicional – já montou espetáculos em uma igreja (Paraíso Perdido), um hospital abandonado (O Livro de Jó), um presídio desativado (Apocalipse 1,11) e às margens do Rio Tietê (BR-3). 

Eliana Monteiro transformou o galpão em um abrigo de sucatas: diversos sofás e cadeiras velhas (recolhidas em entidades que recebem doações, como Casas André Luiz) se espalham pelo espaço, onde deverão abrigar o público. Como o pé-direito do lugar é alto, haverá ainda uma série de plataformas rodeando o perímetro do galpão, por onde circularão os atores. Lá, também, haverá uma infinidade de objetos velhos, como televisores, sacos, latões, além de chapas galvanizadas que formam as paredes.

O ambiente, assim, torna-se sufocante, reproduzindo com perfeição a pressão retratada por Kafka em seu texto, no qual o peito aperta graças aos desmandos do pai. “Desde 2013, sabíamos que essa narrativa de Kafka seria nosso próximo trabalho”, conta Eliana, que viajou a Praga e, durante 20 dias, visitou os locais onde o escritor viveu. “Foi importante para nossa imersão”, conta ela, que se apoiou ainda em um detalhe pessoal. “Meu pai sempre trabalhou muito, como Hermann, o que me faz entender as atitudes superprotetoras de Hermann.”

Os móveis velhos que se espalham pelo galpão e formam o cenário têm uma função simbólica – “Esses objetos carregam histórias distintas das famílias que os utilizaram”, comenta Eliana. “É essa união de energia que nos interessa juntar no espaço.”

Como sempre acontece nos trabalhos do Vertigem, a criação é coletiva e diária, com os atores acrescentando sugestões e propondo discussões. “Isso é muito importante, pois divido a encenação entre o que é descritivo para o espectador e o que é plano de pensamento dos personagens”, explica a diretora que, para o papel do pai mais velho, logo pensou em Antônio Petrin. “Ele impõe uma imagem austera muito forte, sua voz é imponente, características que sempre vi naquele papel”, explica Eliana que, mesmo sabendo que o veterano ator de 77 anos (48 de profissão) não havia passado por experiência semelhante, decidiu convidá-lo. “Foi uma grata surpresa, pois, não apenas ele concordou, como aceitou indicações que eu acreditava difíceis de topar, como subir nas plataformas superiores.”

Habituado à forma tradicional de atuar, Petrin confessa que, inicialmente, estranhou determinadas cenas. “Jamais imaginei que fosse falar em pé numa mesa”, diverte-se ele, referindo-se à cena em que seu personagem conta a Bruno suas estripulias sexuais. 

“Na minha idade, é um desafio sair da zona de conforto e se aprofundar em uma história narrada de forma incomum. Na verdade, eu me sinto privilegiado porque toda nova teoria do teatro começa a ser escrita dessa forma.”

A estreia de O Filho inicia um projeto maior, a Ocupação Karta ao Pai, que vai englobar uma série de eventos pedagógicos, como uma palestra sobre os processos de criação do grupo com o diretor Antônio Araújo (um dos fundadores do Vertigem) e um ciclo de encontros abertos, Kafka e o Teatro, que prevê a participação de convidados especializados em reflexão filosófica e artística. Também estão previstos três encontros com diretores e coreógrafos que já montaram espetáculos com base em Kafka – a lista não está fechada, mas poderá contar com Roberto Alvim, Sandro Borelli e Jorge de Almeida. Finalmente, antigos espetáculos do grupo (como a Trilogia Bíblica) serão exibidos em vídeo na íntegra. 

O FILHO

Sesc Pompeia - Galpão. Rua Clélia, 93, 3871-7700. 5ª a sáb., 19h30; dom., 18h30. R$ 12/ R$ 40. Até 9/8. Estreia 2/7

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