SIDNEY CORRALLO/ESTADÃO
SIDNEY CORRALLO/ESTADÃO

Teatro Brasileiro de Comédia trouxe uma experiência moderna ao palco nacional

A herança do TBC ultrapassa aquilo que produziu durante seus 16 anos de existência

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2018 | 06h00

Há exatos 70 anos, a história das artes no Brasil seria transformada pela reforma de uma garagem. Foi nesse cômodo de uma casa na Bela Vista que o italiano Franco Zampari resolveu instalar a sua sala de espetáculos: o Teatro Brasileiro de Comédia – TBC. Na época, São Paulo estava bem atrás do Rio quando se tratava de palco. A penúria era tanta que, em 1946, artistas paulistas saíram às ruas em protesto pela escassez de teatros: apenas três em toda a cidade. 

A inauguração do TBC, portanto, veio inicialmente desafogar a produção de companhias, como o Grupo de Teatro Experimental, dirigido por Alfredo Mesquita, e o Grupo Universitário, de Décio de Almeida Prado. No repertório, mesclavam-se textos estrangeiros, como À Margem da Vida, de Tennessee Williams, e destaques brasileiros, caso de A Mulher do Próximo, de Abílio Pereira de Almeida.

Mas Zampari não se contentou em dar conta da demanda local. De Buenos Aires, importou Adolfo Celi, outro brilhante italiano que o ajudaria a criar uma companhia profissional no TBC. A direção de Celi mudou o comportamento em cena. Aboliu-se o ponto (figura que costumava ditar para os atores as falas que seriam ditas em cena), a interpretação passou a buscar o máximo de naturalidade – meio de se adequar ao seu aspecto mais intimista, com pouco mais de 300 lugares. 

Outros grandes nomes vieram da Europa para transformar o TBC em divisor de águas da cena nacional: diretores como Ruggero Jacobi, Luciano Salce, Flaminio Bollini e Ziembinski, além de técnicos de alto nível, como Aldo Calvo, grande cenógrafo e figurinista. O repertório, eclético, combinava peças de maior apelo comercial a propostas mais refinadas. Nessa esteira, produziram-se sucessos como Entre Quatro Paredes (1950), ruidosa e polêmica encenação do texto de Jean Paul Sartre, Seis Personagens à Procura de um Autor (1951), Antígone (1952), e Dama das Camélias (1951) – essas duas últimas marcos na interpretação de Cacilda Becker

É possível discutir o alcance do legado do TBC. Muitos questionam, por exemplo, a importação de um modelo europeu e o quanto essa experiência estava distante da realidade social do País. Impossível negar, contudo, o valor da iniciativa e o seu papel determinante na consolidação de uma experiência verdadeiramente moderna de teatro no Brasil. A herança do TBC ultrapassa aquilo que produziu durante seus 16 anos de existência. 

Primeiro, inaugurou-se um modelo empresarial de fazer teatro – não propriamente comprometido com o lucro, mas com uma forma profissional de criação. E, nessa esteira, muitas transformações que vieram para ficar. Formou-se um público acostumado a um repertório cosmopolita. Surgiu uma nova geração não só de diretores, mas também de intérpretes mais técnicos e mais intelectualizados. Cacilda Becker, Paulo Autran, Tônia Carrero, Walmor Chagas, Nydia Licia, Sergio Cardoso – os responsáveis por espalhar essa revolução surgida na rua Major Diogo, levando-a a outros palcos e mantendo-a viva. 

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