ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

Teatro atinge novas frequências com podcasts sobre o mundo do palco

Programas criados durante a pandemia sintonizam ficção, humor, curiosidades e entrevistas

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2020 | 05h00

Apesar das devidas celebrações aos 70 anos da televisão brasileira, um dos maiores fenômenos da telinha, o folhetim, já percorria as ondas de rádio por todo o País muito antes, a partir da década de 1930. Acompanhar histórias seriadas é um hábito mundial e uma paixão antiga. 

O relato melodramático que encantou a audiência de O Direito de Nascer, em 1951, na Rádio Nacional, ganhou corpo e cenário na televisão, estruturando a interpretação do elenco a partir da experiência com a voz. 

De volta à uma criação mais perto dos ouvidos, artistas do palco tocam podcasts voltados às artes cênicas. São programas de entrevistas com artistas, experimentações de textos dramáticos, adaptações de espetáculos estreados, crônicas.

Há também temporadas que comentam histórias e lendas do teatro brasileiro e mundial, como é o caso do podcast Enciclopédia do Teatro Impossível, do ator e diretor Rafael Pimenta. Uma rápida olhada pela lista de episódios pode surpreender até quem conhece bem a história teatral do País. 

Pouca gente sabe, mas existe um teatro, nos moldes gregos, construído em Porto Alegre e que jamais recebeu um espetáculo. Também conta-se um conflito histórico entre dois atores brasileiros – do tipo Mozart e Salieri – que provocou um incendiar um teatro. Essas curiosidades recuperadas por Pimenta compõem uma proposta cheia de humor. “É a trajetória nacional do teatro na perspectiva de seus fracassos”, aponta o ator. No caso da briga entre dois atores, trata-se de Germano Francisco e do imbatível João Caetano. “Nessa época, o publico costumava manifestar desgosto pelas peças batendo com os pés no chão, a famosa pateada. Por aí já dava para saber que Caetano era o preferido.”

Apesar de se apoiar em fatos, há espaço para a imaginação, conta Pimenta. A parte divertida de narrar é também recriarr, ainda que um pouco, os fatos. “Já começo o podcast afirmando de que as pessoas não precisam acreditar em mim. O que vou contar é uma forma de fabular e também de ser transparente com quem me ouve”, ressalta Pimenta. 

Outros histórias devem chegar na Enciclopédia do ator, como a história de Anna Aurora do Amaral Lisboa, considerada a primeira feminista do Rio Grande do Sul, com participação especial da atriz Mel Lisboa

Deve estrear no programa de Pimenta uma história com cara de anedota, ele antecipa. “O diretor Antônio Abujamra se tornou muito amigo de um dramaturgo, embora não gostasse nada de seus espetáculos. No fim da vida, o autor pediu que Abujamra destruísse suas peças, mas o diretor rejeitou a ideia.”

Quem também segue por essa linguagem de passear, mais livremente, pelos fatos, são os cariocas da Cia de Teatro Uz Outrus. Com sede na baixada fluminense, o grupo deu os primeiros passos na leitura de clássicos do teatro e da literatura, no início da pandemia. “O objetivo era manter os trabalhos, para que o grupo não estacionasse”, conta Gabriel Fontoura, integrante da Cia Uz Outrus.

Com o apoio de um edital de cultura do estado, a companhia criou o Quarencena, agora com textos autorais. Nesta temporada, o grupo se dedicou a imaginar que aconteceria se o Brasil voltasse a ser uma monarquia. “Após descobrir uma vacina o País enfrenta uma grande dívida externa. O Brasil é ‘comprado’ por príncipes e o presidente destituído. Nesse intervalo surge um candidato, Pedro II”, explica Fontoura. Para a companhia que completa dez anos em 2020, o trabalho desperta várias frentes que contribuem para as atividades criativas, enquanto não é possível retornar aos palcos. “Realizamos uma intensa pesquisa no tema e a base histórica nos ajuda a imaginar consequências para o futuro”, explica ele. 

Além de História, a presença da música também influencia os podcasts teatrais. Elemento mais que necessário nos espetáculos do Teatro Oficina, a poesia pode ser ouvidas no podcast Rádio Uzona, lançado em junho.

Seguindo o estilo de duração dos espetáculos de Zé Celso, a Rádio Uzona estreou com uma imersão em Para Dar Um Fim No Juízo de Deus. “Começamos com essa por se tratar de uma criação de Artaud para o rádio”, explica Marcelo Drummond. Com pouco mais de 50 minutos, a companhia realiza com voz e música a maratona teatral que estreou no Oficina pela primeira em 1996, em comemoração aos 100 anos do autor. 

O episódio mais recente, O Bailado do Deus Morto confirma a vocação da musicalidade nas criação da companhia e como o som pode ser versátil em formatos radiofônicos. Nesse ritmo, Drummond conta que outros episódios estão por vir, um deles é seu solo Paranoia, já apresentado nos palcos e inspirado nos poemas de Roberto Piva. Ainda em produção, deve estrear no podcast outros trabalhos de artistas do Oficina, como o de Camila Mota, em diálogo com a obra do modernista Flávio de Carvalho

Mais perto dos ouvidos, o trabalho é redobrado

Acostumados com o vozeirão ecoando pelos teatros, os artistas do palco chegam nos podcasts com as vozes aquecidas e inúmeros desafios. 

A turma da Cia Uz Outrus conta que o podcast Quarencena vem sendo produzido em moldes caseiros, tanto por conta da pandemia quanto pelos recursos e habilidades do grupo. “Passamos o início da quarentena fazendo testes e experimentos. O Quarencena estreou quando já tínhamos um texto e roteiro criados especificamente para o programa”, ressalta Gabriel Fontoura. 

Para Drummond, a criação da Rádio Uzona foi uma iniciativa tomada para integrar a campanha de manutenção e apoio financeiro do Teatro Oficina. Além de dar continuidade às atividades do elenco. “Considerando os trabalhos do Oficina, seu elenco numeroso, foi um tanto complicado no começo. Vinte vozes para equalizar não é fácil.”

No episódio de O Bailado do Deus Morto, a Rádio Uzona traz o voz do elenco juntamente com a banda. “Às vezes preferimos refazer as cenas, para depender menos da edição, que pode prejudicar um pouco a naturalidade das cenas.”

No podcast Quarencena, a companhia desenvolve o trabalho em etapas. Após a produção do texto, o material escrito é repassado ao elenco e roteirizado com a direção. “Algumas alterações podem ser feitas, se aparecer alguma fragilidade”, explica Fontoura, da companhia. “Mais tarde, o elenco grava as vozes e seguimos para a edição. Não é mais simples porque não temos o visual da luz ou a presença de cenários e figurinos, como era antes da pandemia.”

Para a Rádio Uzona, o desafio fica mais minucioso. “Nas cenas com canções, a direção musical grava a base e depois gravamos, individualmente, os trechos. Mais tarde, junta-se todas as vozes na faixa.” 

Quando perguntados, todos afirmaram que não falta imaginação para pensar em novas temporadas para os podcasts. Rafael Pimenta afirma que tem recebido mensagens com histórias potenciais para virarem novos episódios. 

A Rádio Uzona também se mostrou aberta para novos roteiros e tramas que façam relação com os trabalhos do Teatro Oficina. Fontoura concorda. “Nosso grupo passou a estar contato com outros criadores, e principalmente com o público.” 

Para ouvir

Janelas Abertas 

Projeto da escola Célia Helena traz entrevistas de artistas com o autor Samir Yazbek.

 
Palimp6º

A rádio-teatro vai ao ar às quartas, sextas e domingos, no site da Radiocracia Já!

Enciclopédia do Teatro Impossível 

Rafael Pimenta narra lendas e histórias de fracasso no teatro nacional.

 

Quarencena 

Cia Outrus imagina um Brasil pós-pandêmico que volta a ser monarquia.

 

Rádio Uzona 

Teatro Oficina reconta espetáculos com poesia e música.

Que Dia é Hoje? 

Disponível no Spotify, o podcast escrito e dirigido por Vinicius Calderoni traz crônicas do confinamento.

 

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