Priscila Prade
Priscila Prade

Tarcísio Meira volta com ‘O Camareiro’, peça sobre ator que desafia o poder

A trama se concentra na relação de um veterano ator, identificado apenas como Sir (Tarcísio), com Norman (Cassio Scapin), seu obstinado criado

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2019 | 16h50

No limite de suas forças, o velho ator interpreta com dignidade e verossimilhança os dramas do Rei Lear, um dos mais complexos personagens de William Shakespeare. “Sua mente já está embaralhada e ele se confunde, assumindo como suas algumas das falas de Lear, o que torna ainda mais intrigante sua fragilidade”, comenta, com imenso carinho, Tarcísio Meira que, a partir do dia 18, reassume o papel daquele homem, protagonista da peça O Camareiro, que retorna, agora no Teatro Faap.



Em 2015, quando estreou a primeira temporada, Tarcísio ganhou o prêmio Shell pela sua atuação. A honraria o convenceu a retomar o espetáculo, agora como produtor, depois de adquirir os direitos que pertenciam a Kiko Mascarenhas, ator com quem dividia o palco. Aliás, o envolvimento da dupla é essencial para o sucesso da peça.

A trama de O Camareiro se concentra na relação de um veterano ator, identificado apenas como Sir (Tarcísio), com Norman (Cassio Scapin), seu obstinado criado. A peça começa quando a Europa vivia um momento delicado: durante a Segunda Guerra, mesmo com Londres sob ameaça constante de bombardeios, uma companhia de teatro shakespeariano insiste em permanecer em cartaz, encenando uma vez mais a desafiadora peça Rei Lear.

Falta uma hora para as cortinas se abrirem, mas Sir está internado em um hospital, à beira de um colapso nervoso. Parte da trupe defende o cancelamento da apresentação, mas Norman segue determinado a manter a encenação, crente que o veterano ator chegará em tempo. “Sua vida está fugindo e Sir tem consciência disso”, comenta Tarcísio, que completa 84 anos no sábado, 5, idade que o torna mais íntimo dos problemas do personagem. “É lindo vê-lo enfrentar as dificuldades e confesso que sinto muita pena de ele se esquecer dos textos.”

O título de Sir caberia bem a Tarcísio Meira - um dos maiores galãs de sua geração, marcou época especialmente na televisão, moldando o perfil do mocinho de folhetim ao somar mais de 50 papéis entre telenovelas, minisséries e seriados, desde 2-5499 Ocupado (1963), na Excelsior, a primeira novela diária da televisão brasileira, até a recente participação em Orgulho e Paixão (2018). Ele não pisava no palco desde 1996, quando encenou E Continua... Tudo Bem ao lado de Glória Menezes, sua mulher desde 1962. 

“Mesmo assim, não aprendi a não ficar nervoso, nem a perder o fôlego”, brinca ele, cujo sorriso tornou-se um símbolo da TV.

“Tarcísio é um eterno curioso, pesquisador. Agora que conhece bem o papel, faz algumas experiências a fim de se renovar”, comenta Ulysses Cruz, que assina a direção de O Camareiro. “É muito interessante acompanhar como ele constrói o papel, buscando diferentes posturas, distintas inflexões de voz.”


Escrita em 1980 pelo britânico Ronald Harwood, a peça pede, de fato, um intérprete solene - na versão para o cinema, por exemplo, dirigida por Peter Yates em 1983, Sir foi vivido por Albert Finney e, no telefilme exibido pela BBC em 2004, o papel foi defendido por Anthony Hopkins. “Há um cavalheirismo natural nesse personagem, capaz de dar um colorido a frases irônicas como a dita por Sir, quando contrariado pelos ataques alemães”, lembra Cruz, recitando, em seguida, a fala: “O senhor Hitler está dificultando muito as companhias shakespearianas”. 

A chegada de Cassio Scapin mudou o tom da montagem, percebe o diretor. “Apesar de grande comediante, Kiko Mascarenhas era mais dramático como camareiro, enquanto Cassio transformou Norman em um homem mais bem-humorado. Com isso, mudou também a forma de relacionamento entre o criado e o patrão, creio que ficou mais apaixonado.”

O drama de Sir, aliás, ganhou novos contornos quando, no momento atual, a arte vive sob suspeita. Quando o ator foge do hospital e volta para o teatro, a situação torna-se crítica. Bombas caem nas redondezas, sirenes de prevenção a ataques aéreos berram angustiadas e Sir, mais confuso que nunca, duvida, pela primeira vez, se deve entrar em cena. Norman, no entanto, passa a persuadi-lo de que a arte deve se sobressair, independentemente das intempéries. “É um exemplo de resistência”, diz Tarcísio.

“Norman é fascinante porque é um artista que encontrou seu lugar no teatro”, comenta Scapin. “E não é o de atuar, mas o de servir. E, nessa função, ele exerce o pequeno poder, revelando seu lado humano.”

 

Peça inspirou dois filmes e se baseou em personagem real


Ronald Harwood ganhou notoriedade mundial quando sua peça The Dresser (1980) foi adaptada para o cinema em 1983, com direção de Peter Yates - com Albert Finney como o velho ator chamado de Sir e o fiel camareiro vivido por Tom Courtenay, o longa recebeu cinco indicações para o Oscar, mas não faturou nenhum. Na verdade, ele só ganharia uma estatueta pelo roteiro adaptado de O Pianista, longa dirigido por Roman Polanski em 2002.

O enredo de O Fiel Camareiro, como o filme se chama no Brasil, é baseado em experiências pessoais de Harwood, que foi, de fato, ajudante de um ator e empresário inglês, Donald Wolfit, modelo para o personagem Sir. Tanto a peça como suas versões filmadas reforçam a dedicação desmedida de Norman pelo velho ator. 

“No final de uma tumultuada carreira, Sir percebe que não tem amigos, foi um tirano; as pessoas tentaram amá-lo, mas nada funcionou”, comentou Anthony Hopkins, que interpretou esse personagem no telefilme rodado pela BBC em 2004 - Ian McKellen viveu o camareiro. “Então, ele estabelece que, um dia, encontrará seu apogeu. Em meio ao colapso, ele é conduzido ao palco e ali ocorre o momento divino, e Sir compreende: ‘Eu cheguei lá. Cheguei lá’.”


Com uma sólida tradição no teatro inglês, Hopkins entende com perfeição a seriedade com que se trabalham os textos de Shakespeare na Inglaterra. Rei Lear, por exemplo, que ocupa um momento crucial de O Camareiro, foi interpretado por Hopkins precocemente, nos anos 1980, como ele mesmo reconheceu, quando habitualmente é um dos últimos papéis vividos por um ator.

“Somente agora tenho consciência disso”, reconheceu ele, em entrevista ao Los Angeles Times em 2016. “Eu era jovem demais para o papel, mesmo assim quis tentar. Seja pela falta de paciência, na minha vida pessoal, porque quaisquer que sejam as nossas convicções, nós somos aceitos e amados por aquilo que somos e não por aquilo que poderíamos ser. Não podemos ser tudo. Somos o que somos, com nossos defeitos, pecados e virtudes. Também cometemos erros e, por fim, você pensa: bom, é isso aí. Fiz o melhor que pude. É disso que ele se dá conta no fim.”

O curioso é que a trama é ambientada na Segunda Guerra Mundial, época em que o ator que inspirou Sir, Donald Wolfit, não era um homem de idade, com problemas físicos e de memória, mas um senhor próximo dos 40 anos e no melhor de sua saúde. 


SERVIÇO:

TEATRO FAAP 

RUA ALAGOAS, 903. 

TELEFONE: 3662-7232. 6ª E SÁB., 21H. DOM., 18H. R$ 100 / R$ 120. ATÉ 15/12

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.