Tarcísio Meira e Glória Menezes retornam ao teatro

Tarcísio Meira e Glória Menezes retornam ao teatro

Casal ainda busca desafios no palco e na televisão

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2015 | 03h00

Dois momentos de pura idolatria – na semana passada, após uma consulta médica de rotina em São Paulo, o ator Tarcísio Meira é surpreendido, ao entrar no elevador, por um homem que diz: “Finalmente! Estou aqui há horas, subindo e descendo, esperando o senhor chegar só para tirar uma foto”. Em outro momento, no aeroporto de Congonhas, a atriz Glória Menezes é também surpreendida, dessa vez por um rapaz que se curva e lhe cede passagem afirmando: “Por todos os sonhos e bons momentos que você me proporcionou, por favor, passe na minha frente.” “As pessoas são sempre muito gentis conosco”, comenta Tarcísio. “Ainda somos tratados como membros da família”, completa Glória.

Casados há 52 anos, Tarcísio e Glória tornaram-se referência na cultura brasileira. No cinema, teatro, mas especialmente na televisão, eles presenciaram o crescimento do gênero, desde a época de precariedade técnica (“Fazíamos novela quase ao vivo”, lembra Tarcísio) até que o avanço tecnológico permitiu que a TV integrasse o País, derrubando fronteiras regionais.

Protagonistas de um manancial de histórias saborosas, Tarcísio e Glória estão prestes a acrescentar mais uma: ambos estarão em cartaz em palcos paulistanos. Ela reestreou, na sexta-feira, 7, a comédia romântica Ensina-me a Viver, no Teatro Bradesco, espetáculo que está na estrada desde 2007, quando iniciou carreira em São Paulo. E Tarcísio, perto de completar 80 anos (5 de outubro), idade que Glória alcançou no ano passado, está ansioso para voltar ao teatro depois de duas décadas com O Camareiro, poderoso drama em que vive um ator à beira de um colapso nervoso e que estreia dia 4 de setembro, no Teatro Porto Seguro.

“Durante quatro dias (de 4 a 6 de setembro), estaremos em cartaz ao mesmo tempo”, observa Glória que, logo em seguida, vai com sua peça para Uberlândia e Porto Alegre. “Eu fiz mais teatro que Tarcísio, mas, em compensação, ele participou de mais filmes.” Telenovelas, no entanto, ambos somam números portentosos – Tarcísio atuou em 54 e Glória, em 37, preparando-se agora para o próximo folhetim das 19 h, Totalmente Demais.

A trajetória artística do casal praticamente coincide com a história da televisão brasileira, ainda que o casal iniciasse a carreira no teatro. Tarcísio estreou em 1957, com A Hora Marcada, enquanto Glória começou no mesmo ano com Devoção à Cruz. Mas eles começaram a se tornar populares com 2-5499 Ocupado, a primeira telenovela diária brasileira, exibida pela TV Excelsior em 1963.

“A trama era ruim, água com açúcar, inspirada em uma história argentina, fizemos por obrigação”, conta Glória. “Mas, apesar disso, foi um sucesso tremendo e teve o mérito de permitir o que tanto ambicionávamos: as novelas acostumaram o público ao teatro popular, algo que não conseguíamos com o formato tradicional”, completa Tarcísio. “Foi graças ao sucesso dos folhetins que o público também criou o hábito de se informar pelos telejornais, exibidos entre uma história e outra. No seu auge, quando contou com criadores como Bráulio Pedroso, Jorge Andrade, Dias Gomes, a novela representou um exercício de sensibilidade para o espectador.”

Tarcísio, cuja mais recente aparição na telinha foi no remake de Saramandaia, em 2013, não esconde o desgosto com as tramas atuais, que considera frias. “Sinto que faltam personagens que caiam no gosto do público, que se tornem seus amigos.”

Personagens vividos por ele e Glória com grande sucesso, às vezes excessivo – certa vez, no Recife, onde foram perseguidos por uma multidão de fãs, tiveram as roupas rasgadas e fios de cabelo arrancados. “Mas, de uma maneira geral, sempre somos bem tratados”, observa Glória.

Eles são testemunhas também da evolução tecnológica da TV, especialmente da Globo. “No começo, era uma emissora pobrezinha, com equipamentos de segunda linha e usando fitas usadas”, conta Tarcísio. “Em um dia de dez horas de trabalho, passávamos duas ensaiando, outras duas gravando e o resto esperando o conserto das câmeras.”

Essa época de desbravamento é lembrada com boas histórias. Glória se diverte quando lembra do marido gravando cena para Sangue e Areia, na qual vivia um toureiro. “Ele gravava no terraço da Globo e fingia tourear com uma capa vermelha. Só que o touro era o guidão de uma bicicleta, o que fazia a festa dos moradores dos prédios vizinhos."

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