Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Também no cinema, Antunes Filho mostrou conhecer o país em que vivia

Um dos maiores nomes do teatro nacional, diretor morreu na quinta-feira, 2, aos 89 anos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2019 | 13h09

Embora tenham sido caracteristicamente homens de teatro, grandes diretores tentaram o cinema. Não fizeram mais que um filme, cada. Flávio Rangel dirigiu Gimba, José Celso Martinez Correia, 25, e Antunes Filho, Compasso de Espera. O longa de 1969 é o melhor dos três. Poderia ser relançado hoje, e ainda seria atual. Há 50 anos, Antunes Filho estava abordando questões de raça que continuam longe de estar resolvidas no Brasil.

Zózimo Bulbul faz um dublê de poeta e publicitário. É amante de uma mulher, branca, dona da agência. Envolve-se com outra, também branca, que conheceu na própria agência, como modelo. As estatísticas indicam que o Brasil é recordista nos assassinatos de jovens negros e pobres - não vamos misturar as coisas, mas gays, mulheres e trans também são vítimas dessa verdadeira guerra civil que ensanguenta o País. Os indesejáveis - os 'outros'.

Zózimo está longe de ser um estereótipo. É belo, másculo, intelectual, refinado. Mas só o fato de circular com essas mulheres brancas e belas - a jovem Renee de Vielmond - provoca reações racistas. "Essa mulher tinha de estar com um branco", "Eu falo, meu amigo, mas não sou racista; também tenho uma amante pretinha", etc. A irmã lhe joga na cara que, ao tentar ser aceito nesse outro mundo, ele está renegando suas raízes. De certa forma, Compassso de Espera não é só um filme, mas um manifesto. Está cheio de frases fortes que expressam o mal-estar do autor diante da realidade. É magnificamente fotografado, em preto e branco, por Jorge Bodansky. E tem o elenco.

Por ocasião da morte de Antunes Filho, na quinta-feira, 2, todos os obituários destacaram que ele, como diretor, ensinou três gerações de atores a fazerem entregas viscerais no palco. Como verdadeiro homem de cinema, ele entendeu que o personagem nasce e se dilata no corpo, na epiderme dos atores. Zózimo e Renée possuem esse erotismo, essa sensibilidade à flor da pele. Numa cena, na praia, são agredidos por pescadores. Não era só no palco que Antunes Filho, homem de esquerda, democrático, mostrava conhecer o país em que vivia.

 

Tudo o que sabemos sobre:
Antunes Filho

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.