Valentino Mello/Divulgação
Valentino Mello/Divulgação

Susana Vieira vive a mulher que busca a satisfação pessoal em 'Uma Shirley Qualquer'

Atriz procura o lado leve de uma personagem densa

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2017 | 04h00

Susana Vieira queria voltar ao teatro - sua última participação foi no musical Barbaridade - e estudava um texto americano sugerido pelo diretor Ulisses Cruz quando se encontrou com Miguel Falabella. “Somos amigos há muito tempo e ele me conhece muito bem. Assim, ao avaliar a peça que eu estudava, Miguel apresentou outra sugestão, que acreditava ser perfeita para mim”, conta a atriz. Era a comédia dramática Shirley Valentine que, na versão de Falabella, se tornou Uma Shirley Qualquer, que estreia nesta sexta, 13, no Teatro Renaissance.

Foi o esforço do amigo que convenceu Susana. “Ele traduziu em três dias, adaptando o texto ao meu jeito de falar. E, quando foi me apresentar, Miguel interpretou tão bem que eu disse que ele deveria fazer o papel”, diverte-se Susana que, embora já tivesse feito um solo (em 2003, ela declamou trechos de Água Viva, de Clarice Lispector, acompanhada por dois bailarinos e dirigida por Maria Pia Scognamiglio), ela não tinha intenção de fazer um novo solo. “Sempre achei que seria chato, poderia parecer um stand-up”, justifica.

Mas a versão de Falabella a encantou. Eles se conhecem há muito tempo e, além da amizade, juntos participaram de grandes sucessos do palco nacional, como na peça A Partilha, de 1990, que gerou uma bem-sucedida continuação, A Vida Passa (2000). “Posso dizer que minha vida artística se divide entre antes e depois do Miguel. Tenho uma carreira muito feliz, mas, fazendo A Partilha, ele nos uniu para sempre.” 

Como está acostumada a fazer os outros rirem, mesmo espontaneamente, Susana procura o lado leve de Uma Shirley Qualquer. “Não é uma comédia rasgada, mas não falta bom humor”, assegura. “Shirley é o tipo de mulher que tem algo de todas: o sentimento de tristeza, de solidão, o abandono dos filhos, o desprezo do marido. E, se pensarmos que a história se passa anos atrás, era uma época em que a mulher tinha dificuldade de sair de um casamento.”

Shirley sofre com a solidão. O marido, Joel, só se interessa em saber se terá carne no jantar, enquanto os filhos Milandra e Jorge procuram a mãe apenas quando estão com problemas. É nesse momento da vida que Shirley Valentine descobre que se tornou uma Shirley qualquer. Para reverter a situação, ela cria coragem e viaja para a Grécia, país de seus sonhos, sem consultar a família.

Susana revela que esse trecho do espetáculo lhe toca profundamente. “Minha mãe foi uma mulher que teve problemas semelhantes no casamento e seu sonho era justamente conhecer a Grécia”, revela a atriz que já soma cerca de 55 anos de carreira. “Sua lembrança me dá conforto. Vejo os olhos e me lembro de como ela se vestia, como se comportava.”

A atriz conta que não se sente sozinha em cena, mesmo não contracenando com ninguém. “Procuro encontrar a presença de várias pessoas, desde a camareira que estará próxima, nos bastidores, até o iluminador e o autor da trilha sonora, cujos trabalhos me deixam mais segura.”

A música incidental, aliás, é particularmente próxima de Susana, pois foi criada por seu irmão, Sérvulo Augusto, que trabalha com música e teatro desde 1975, quando integrou o elenco da peça O Reino do Contrário, de Maria Elena Walsh, com direção de Roberto Lage.

Tantas coincidências envolvendo a própria família já não surpreendem mais Susana Vieira desde o momento em que decidiu escrever sua autobiografia. O impulso partiu de um convite de Mauro Alencar, um estudioso da telenovela brasileira, profundo conhecedor do assunto. Ainda sem título, o livro deve sair em agosto e a dupla já acertou contrato com uma editora. Nas conversas que mantém com o pesquisador, a atriz faz o paralelo entre sua vida pessoal e sua carreira.

“Apesar de lidar com o passado no livro, eu faço análise pensando apenas no presente e no futuro”, conta. “Não pretendo resolver problemas antigos. Não guardo mágoas, não trabalho com esse produto. Aliás, fatos que antes me pareciam uma tragédia agora vejo que não eram tão ruins assim.” 

UMA SHIRLEY QUALQUER

Teatro Renaissance. Alameda Santos, 2.233. Tel.: 3069-2286. 6ª, 21h30. Sáb., 21h; dom., 18h30. R$ 100. Até 26/3

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