Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Susana Vieira, Grace Passô e Georgette Fadel assumem solitárias o palco, em peças sobre a liberdade

Monólogos com atrizes femininas estreiam em São Paulo

Leandro Nunes e Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2017 | 04h00

Três atrizes que assumem solitárias o palco - em Uma Shirley Qualquer, Susana Vieira estreia em monólogo no papel da mulher que sofre com o pior tipo de solidão: aquela em que a pessoa se sente só mesmo estando acompanhada. Já em Afinação I, Georgette Fadel interpreta a pensadora e professora francesa Simone Weil, que ministra uma aula conferência sobre a relação entre a opressão e o sofrimento no mundo e o boicote ao pensamento racional. Finalmente, a atriz, dramaturga e diretora Grace Passô trata da construção da identidade e do poder da palavra em Vaga Carne. 

Ao buscar a aproximação dos aspectos mais humanos das personagens, elas transformaram o monólogo, conseguindo que o espectador se aproxime do tema tratado. Assim, é pelo humor agridoce que Susana Vieira se vale de sua experiência de mais de 55 anos de carreira para traçar o perfil da mulher que conversa mais com as paredes do que com a própria família, uma reflexão em que busca entender aonde foram parar seus sonhos e o que aconteceu com sua vida.

O espetáculo, que vai ocupar o palco do Teatro Renaissance, é uma nova versão (agora assinada por Miguel Falabella) da peça Shirley Valentine, escrita em 1986 pelo inglês Willy Russell. Antes, já foi encenada por Renata Sorrah em 1991 e Betty Faria, em 2008. É preciso também lembrar da preciosa interpretação, no final dos anos 1980, da inglesa Pauline Collins, que ganhou um Tony (o principal prêmio da Broadway) e foi indicada para o Oscar pelas encarnações da dona de casa no teatro e no cinema.

Em todas as montagens, o destaque é o mesmo: o que as paredes ouvem da dona de casa é um testemunho de solidão - os filhos emancipados e o marido que só a vê como cozinheira fazem com que ela fale ao léu para evitar a mudez total. E esse diálogo franco com a plateia que, afinal, representa a quarta parede imaginária de um teatro, funciona porque é baseado em grandes verdades. Shirley se apropria do silêncio que a rodeia para refletir sobre suas próprias decisões, como a de viajar para a Grécia, realizando um grande sonho. 

Morto nesta semana, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman dizia que hoje se vive em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. “O amor é mais falado que vivido”, dizia Bauman. “Vivemos um tempo de secreta angústia.” E, segundo a filosofia, a angústia é o sentimento que representa o nada - quando ela se instala, o corpo se inquieta e a alma sufoca.

 

Para que o espetáculo não deságue em depressão, o tradutor e diretor Miguel Falabella cuidou de salpicar o texto com tiradas bem-humoradas, que apontam para a importância do recomeço, ou seja, que nunca é tarde para se tomar um bom vinho branco a fim de encarar os fatos com leveza, até mesmo quando tudo parece só dar errado.

Mais pragmático é o texto de Afinação I, formado por trechos escritos por Brecht, Hegel, Marx e pela própria Simone Weil. Em cena, na pele da pensadora, Georgette Fadel fala sobre a relação entre a opressão e o sofrimento no mundo e o incrível boicote ao pensamento racional. Enfim, sobre a liberdade. 

E, se em Uma Shirley Qualquer o público assume o papel de confidente, em Afinação I as pessoas se acomodam o mais próximo possível da atriz, como um grupo de estudantes que, caneta à mão, tomam anotações. É o que aconteceu na temporada no Rio de Janeiro e nas primeiras sessões desta semana no Sesc Ipiranga. O clima que Georgette busca instaurar é o mesmo das boas aulas e dos grandes e inesquecíveis professores. Tudo isso para que a plateia possa participar livremente, levantando questões e dúvidas. 

A atriz acredita que o formato concebido para o espetáculo serve para reavivar a memória dos tempos de escola e dá a chance de pensar a realidade do presente. Nessa sala de aula, a professora Simone apresenta questões um tanto complexas naturais das obras de filósofos que pararam para refletir sobre um grande mistério construído na rotina da vida: as relações sociais.

É por uma via semelhante que o solo de Grace Passô vai trilhar, empreendendo uma aventura pelos primórdios do pensamento. O foco de Vaga Carne reúne elementos que se concretizam em um estranho encontro. Na peça que estreia nesta sexta, 13, no Sesc Pompeia, o corpo da atriz mineira recebe a vista de uma voz. Não se sabe sua origem e seus desígnios. Ao perscrutar esse cenário humano, cria-se um diálogo detonado por palavra e movimento.

A coexistência da voz com o corpo é o terreno de investigação da diretora, dramaturga e atriz que foi uma das fundadoras do Grupo Espanca! e que mantém parceria com os paranaenses da companhia brasileira. Nas mãos de Grace, o solo que estreou no Festival de Curitiba no ano passado nasce com destino particular: trazer na pele as questões que atravessam a vida de uma mulher, artista e negra no Brasil. 

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