Daniel Chiacos
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Susana Vieira e seu bom humor estão de volta em 'Uma Shirley Qualquer'

Até o dia 31, no Rio, atriz estrela a nova montagem da comédia dirigida por Tadeu Aguiar

Bruno Cavalcanti, Especial para o Estadão

02 de outubro de 2021 | 05h00

Quando explodiu a pandemia e a covid-19 se mostrou letal, nem o famoso bom humor e a constante energia positiva de Susana Vieira ficaram incólumes aos efeitos da crise. “Sou alegre, alto-astral, mas, depois de um ano e oito meses… Eu não me drogo, não bebo, não fumo e não rezo, pô, aí é demais, nem eu aguento”, diz a atriz, que já convivia havia cinco anos com a leucemia linfocítica crônica, um tipo menos agressivo de câncer, mas que a põe no principal grupo de risco do vírus.

A artista então se trancou em casa e mergulhou numa maratona intensa de séries. Entre suas favoritas estão House of Cards, O Gambito da Rainha, The Crown e uma seleção de séries árabes e novelas mexicanas. “Eu dormia às cinco da manhã e acordava à uma da tarde, quase não via o dia e achava que era normal. Quando vi que não era, caí doente. Fiquei cinco dias internada com 50 enfermeiras querendo saber o que Susana Vieira queria, achei ótimo”, ri.

Deprimida, a atriz contou com a companhia de seus cinco cães e encontrou a mola que a alçou para fora do poço: o convite do produtor Edgar Jordão para retomar a produção de Uma Shirley Qualquer, peça do britânico Willy Russell (que ganhou adaptação no cinema como Shirley Valentine) que estrelou em 2016 sob a direção de Miguel Falabella.

“Eu pedi ao Miguel para escrever alguma coisa para mim, porque não gosto de ficar sem trabalhar. Aliás, não gosto de ficar sem atuar, porque posso trabalhar na padaria, na banca de jornal. Ele estava muito ocupado, mas lembrou desse texto e ia adaptar para ficar mais brasileiro. Eu estava no escritório onde ele escrevia e eu lia, escrevia e eu lia, porque ele tem essa capacidade”, relembra a artista.

A montagem que chegou ao palco do Teatro XP Investimentos, no Rio de Janeiro, contudo, não é a mesma que rodou o Brasil entre 2016 e 2017. Ainda com a tradução de Falabella, a direção agora é assinada por Tadeu Aguiar, que entrou na produção com o intuito de dar uma visão diferente à Shirley Valentine de Susana.

“Ela tem uma espontaneidade incrível, mas ficava muito solta para fazer a peça dela. O que propusemos, e ela aceitou porque é muito disciplinada, foi ter momentos calmos, de reflexão. Quisemos dar uma nova interpretação, aproveitando, claro, o carisma que ela tem com o público. Transformamos a plateia na parede com a qual a personagem fala”, explica o diretor, que assinou espetáculos premiados, entre eles A Cor Púrpura, que retorna a São Paulo em novembro, e com o qual traça paralelo com a nova produção.

Amor-próprio. “A Shirley é a nossa Celie (personagem de A Cor Púrpura) moderna. Ela vai à luta e entende que, quando ela ama a si própria, tudo se resolve. É a mesma coisa que acontece com a Celie, que passa aqueles perrengues todos e quando decide que vai transformar sua vida na base do amor, transforma toda a comunidade. A Shirley é solitária, fala com as paredes, o marido a trata como se fosse um utensílio, um móvel da casa, mas ela rompe. Mete o pé na porta e se liberta”, explica.

Susana vai além. “A mulher brasileira vê o mundo caindo, mas passa um batom e vai para o pagode. Ela sempre procura um motivo para ficar alegre, se arrumar, passar perfume, arrumar um homem, é fantástica. É como naquela música da Rita Lee que toda mulher quer ser amada, quer ser feliz, se faz de coitada, mas com humor. Ela encontra as amigas e conta as coisas ruins com um deboche, com alegria, igualzinha a mim. Eu posso te contar uma tragédia, mas vai ser uma tragédia muito criativa.”

O bom humor da artista, contudo, tem um limite: o cenário político. A favor da vacinação (acaba de tomar a terceira dose de reforço) e contra o armamento da população (“Tenho horror a armas, horror que facilitem que uma pessoa compre fuzis!”), Susana também se considera uma feminista em atividade muito antes da ascensão do movimento. “Fiz o sacrifício de me casar, porque só se saía da casa dos pais casada e virgem. Aguentei por sete anos, me separei e fui viver minha vida, criar meu filho, ser atriz. Enfrentei meu pai, que era militar, então sempre fui feminista, fiz o que quis quando quis.”

Entretanto, ainda que não se considere politizada (“Eu não tive um grupo companheiro, porque tudo parte de um grupo, você não fica politizado sozinho”), a artista enxerga em sua carreira uma série de personagens políticos tanto na TV quanto no teatro, lugares onde se sente realizada, ainda que considere que lhe falte uma personagem: Lady Macbeth.

“Mas ninguém quer montar um clássico de Shakespeare. Acham que não vai dar público, que é caro.” Em temporada até o dia 31, a artista se prepara para uma turnê em Portugal e para finalizar o livro de memórias, que escreve ao lado de Mauro Alencar, interrompido pela pandemia. “Vai ter um capítulo sobre a pandemia. Tem de ter porque eu vivi, eu sobrevivi e agora, com a Shirley, eu saí do buraco”, finaliza.

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