Maja Zimmermann
Maja Zimmermann

Suíça propõe programa de intercâmbio cultural com a América Latina

Fundação Pro Helvetia empenha-se em escapar de viés colonial

Helena Katz, ESPECIAL PARA O ESTADO

22 de fevereiro de 2017 | 17h49

Nestes tempos de desmonte da cultura, anima saber que a Suíça está propondo um programa de intercâmbio com a América Latina. Vai ser gestado ao longo de 4 anos e seus idealizadores se declaram empenhados em escapar do viés colonial que, normalmente, tem revestido ações semelhantes. O projeto é da Pro Helvetia, uma fundação pública com atuação nacional e internacional, que corresponderia ao nosso Ministério da Cultura.

Evidentemente, seu interesse primordial é promover os artistas suíços e, para tal, vem espalhando, ao longo dos últimos 30 anos, o que chama de “escritórios de ligação” no Cairo, em Johannesburgo, Nova Délhi, Xangai e Moscou (recentemente inaugurado). E, como a cada quatro anos o Parlamento suíço escolhe um tema para as suas políticas públicas, e o mais recente foi “intercâmbio cultural da Europa com o mundo”, a América Latina passou a interessar.

Luca Depietri, gerente do futuro Programa para a América Latina, e Jasper Walgrave, chefe do escritório de Zurique da Pro Helvetia, viajaram por Montevidéu, Buenos Aires, Rio, São Paulo, Santiago do Chile, Cali, Bogotá e Cidade do México. “Percebemos que será necessário descobrir maneiras de ligar não apenas os países da América Latina conosco, mas também entre si”, conta Luca, em Genebra, no início de fevereiro.

Em janeiro, a Pro Helvetia realizou a sua segunda iniciativa e enviou 10 suíços (6 programadores/produtores e 4 artistas) ao Festival Santiago a Mil, que reúne várias linguagens artísticas. “O objetivo é ir além do modelo habitual de importação e exportação de produtos artísticos, que todos sabem que privilegia a exportação. O desafio é transformar o mecanismo impo-expo em diálogo, pois temos noção da assimetria da nossa relação com essa região. E para formular a identidade do Programa, vamos lançar uma série de encontros interdisciplinares a cada seis meses, coordenados por Sofia Olascoaga, do México, que foi cocuradora da 32.ª Bienal de SP, no ano passado.”

Felizitas Ammann, diretora de dança da Pro Helvetia, lembra que a fundação foi criada em 1939 com a missão de manter unidas as três culturas do país (alemã, francesa e italiana) e de criar uma imagem internacional para a sua produção artística. 

Para a ação na América Latina, a fundação pretende repetir o cronograma de realizar quatro anos de atividades coordenadas por um profissional local, aplicado para a abertura do recente “escritório de ligação”, em Moscou. Quem fará este papel aqui será Benjamin Seroussi, que dirige a Casa do Povo e a Vila Itororó, na cidade de São Paulo, e caberá à Chimene Costa, de Buenos Aires, a coordenação de produção.

Para realizar a sua terceira ação, que chamou de Viagem Cultural de Investigação, a Pro Helvetia levou a Genebra e Lausanne, em fevereiro, programadores e jornalistas do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Colômbia. Apesar da fala dos responsáveis enfatizar que desejam desenhar um programa diferenciado, o modelo adotado foi o habitual: todos foram reunidos dentro do contexto de mais uma plataforma de apresentação da dança suíça, o Swiss Dance Days. Tais eventos são entrepostos de compra e venda, nos quais artistas aspiram a conquistar a atenção daqueles que precisam preencher as agendas de seus teatros e festivais. Neste, destacou-se o impactante trabalho de Lea Moro sobre o barroco, (b)reaching stillness, que temperou cardápio insosso com a sua concepção rigorosa e inovadora.

Sabedor da complexidade envolvida na expressão, Benjamin Seroussi se recusa a nomear o Programa como sendo “para a América Latina”: “O desafio será conhecer melhor as Américas do Sul e Central para, quem sabe, chegar a articular seus artistas entre si e com os suíços. Conhecemos as armadilhas de timbre colonial que um Programa como esse tende a envolver. Alertas para esse risco, queremos descobrir como montar, em contextos neocoloniais, políticas que favoreçam a existência de espaços críticos e promovam verdadeiros diálogos”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.