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Suely Franco comemora 60 anos de carreira em encontro inédito com Fafy Siqueira

Atriz estreia 'Muito Louca' e relembra trajetória nos palcos e na televisão, além do carinho do público infantil

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2018 | 06h00

Se a comédia carece de certa dose de talento, a experiência é prova de que a arte de fazer rir não é para qualquer um. Quem conseguir manejar essa graça e ainda conquistar gerações pode anunciar sua missão como cumprida. Mas para Suely Franco nunca será a hora de parar. A atriz comemora 60 anos de carreira no espetáculo Muito Louca, que estreia nesta sexta, 20, no Teatro Raul Cortez. 

Na comédia, a atriz vive Tete, uma “moradora dos Jardins” que aparentemente não tem grandes preocupações, vive bem e confortavelmente, a não ser com o abandono do ex – prepare-se para ouvir o nome do moço muitas vezes. “Eu já li a peça pensando em muitas amigas parecidas com Tete”, diverte-se Suely. O excesso de lamúrias já se revela no início da peça. A personagem quase vive em outro mundo. “Como muitas pessoas”, afirma Suely. “Elas vão entrando nessa espiral e quando veem estão isoladas da vida.” A solução da terapeuta de Tete – que se refere à personagem pelo título da peça – foi: toda vez que a mulher disser o nome do ex, deve pagar R$ 10 ao seu interlocutor. Não se sabe se a estratégia da terapeuta era para cessar a mania, mas quem ganhará bastante nessa história é a amiga de Tete, Janete, vivida pela atriz e humorista Fafy Siqueira.

O encontro das duas no palco faz parte dos festejos de Suely nessas seis décadas. “Ela jurava que a gente já tinha trabalho juntas”, afirma Fafy. A humorista e cantora se referia ao musical As Noviças Rebeldes (1987), sucesso que já ganhou uma versão masculina e que marcou a estreia de Wolf Maya como diretor. “Fizemos as contas e descobrimos que a Suely entrou depois que eu saí do elenco”, conta a atriz. Para a Fafy, esse encontro já não era sem tempo. “Sempre nos prestigiamos nos trabalhos da outra.” 

Se Tete manifesta sua desilusão 24 horas por dia, Janete é um oposto complementar. A “hippie de botique” acredita que os dois homens com os quais se relaciona estão perdidamente apaixonados por ela, mesmo que um esteja prestes a sair do País, e o outro tenha agenda predeterminada para os encontros. “Ela acredita que esses caras estão loucos para ficar com ela, mas cada um tem um problema. Um deles pediu um tempo e vive dizendo que o apartamento está em reforma, o que impede visitas. O outro só a encontra aos sábados, porque tem três filhos para cuidar.”

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Para compor a personagem sonhadora, Fafy diz que foi impossível não lembrar de conhecidas e que o figurino é parte importante de sua criação. “A Marília Pêra dizia que não era nada sem figurino”, conta. “Eu costumo grudar na figurinista e ir pensando nos detalhes. Quando sinto que finalizamos, só preciso entrar e encaixar na personagem.”

Para Suely, a parte da criação é bem-sucedida quando o público reage. A atriz não pode negar que já encantou gerações e o público infantil mantém-se fiel à sua Dona Benta, de Sítio do Picapau Amarelo. “Os adolescentes que acompanhavam na época já estão grandes”, conta sobre a série veiculada na TV Globo entre 2001 e 2005. Os menores de agora acompanham a atriz em D.P.A – Detetives do Prédio Azul, série transmitida no canal pago Gloob e que já está em sua 10.ª temporada. “Estamos gravando a próxima que vai ao ar no ano que vem”, conta. 

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O ritmo de trabalho não parece incomodar a atriz de 78 anos. Suely lembra que sempre trabalhou, desde a estreia de Beijo no Asfalto, com o Teatro dos Sete, em 1961, e mesmo antes, no Grande Teatro Tupi, o teleteatro idealizado por Sergio Britto. “A turma toda estava lá, fazendo as cenas ao vivo.” Ela diz que apesar das dificuldades do ofício, os projetos são realizados com todo prazer. “Antes, a gente conseguia fazer teatro com 10, 12 pessoas em cena. Hoje, isso fica mais difícil. Já na novela, era só acabar para ficar um pouco esquecida. O jeito é pegar o que vier. Não dá para ficar sem trabalhar.”

Com a regulamentação da profissão de artista prestes a ser julgada pelo STF – a votação neste mês foi outra vez adiada, Suely não demonstra temor. “Quero ver no que vai dar. Teremos que lidar com o que vier.” Para Fafy, a indignação revela que o artista precisa defender seu ofício, por muitos anos marginalizado. “A Dercy Gonçalves lutou para que na nossa carteira de trabalho estivesse o registro de artista, não de prostituta, como já foi. Nada contra essas mulheres, mas são profissões diferentes.” Para a humorista, os estudos ajudam a preparar um verdadeiro artista. “Tem gente que fala que não é só artista que faz arte, mas tem gente que é deputado em Brasília e não entende nada de política.” 

MUITO LOUCA. Teatro Raul Cortez. R. Dr. Plínio Barreto, 285. Tel.: 3254-1631. 6ª, sáb., 21h, dom., 18h. R$ 60 / R$ 80. Estreia 20/4. Até 8/7.

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