Rodrigo Lopes
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Sozinha no palco, Mariana Xavier trata de tema delicado com humor

Atriz interpreta sete personagens no monólogo 'Antes do Ano que Vem', que estreia no Teatro Unimed

Dirceu Alves Jr. , Especial para o Estadão 

04 de março de 2022 | 15h00

Réveillon de 2020, o último daquele velho mundo que conhecíamos. Em um refúgio ecológico de Nova Friburgo (RJ), a atriz carioca Mariana Xavier pulava de alegria, agradecia as conquistas e renovava as energias porque o ano que se iniciava prometia muito, muito mais. Ela parecia, em 4 de janeiro, uma criança tomando banho de chuva até que um passo em falso a fez tombar na grama molhada. Mariana quebrou a perna, enfrentou uma cirurgia emergencial e recebeu um aviso do médico: “Cinquenta dias, pelo menos, sem pisar no chão”.

A estreia de Antes do Ano que Vem, seu primeiro monólogo, marcada para a semana seguinte, foi adiada para dali a três, no máximo quatro meses. A frustração se intensificou quando, na metade de março, o coronavírus paralisou o planeta, e Mariana, ainda com dificuldade de firmar o pé, engavetou o projeto sem perspectiva de data. “O meu isolamento começou dois meses antes, foi um aviso prévio do que viria pela frente”, recorda a artista, bem mais aliviada, na iminência de ganhar a cena.

Dirigida por Ana Paula Bouzas e Lázaro Ramos, Mariana sobe ao palco do Teatro Unimed nesta sexta, 4, para, enfim, estrear Antes do Ano que Vem. O monólogo cômico, escrito por Gustavo Pinheiro, transforma a atriz de 41 anos em sete personagens, algo inédito em duas décadas de carreira. “Se é para protagonizar um solo que seja diferente de tudo o que as pessoas esperam de mim”, diz. Seis delas são mulheres à beira do suicídio, deprimidas por causa do fim de ano, gritando por salvação no Centro de Apoio aos Desesperados. A sétima é a faxineira Dezuíte, que, na ausência da psicóloga, assume o telefone e distribui conselhos peculiares na tentativa de convencer as interlocutoras de que seus problemas não são tão insolúveis assim.

Comediante popularizada pelos filmes da trilogia Minha Mãe é uma Peça, Mariana desafia a plateia com um tema denso e visto como tabu. “Eu acredito na comédia como ferramenta crítica, então acho importante abordar questões sérias embaladas com certa leveza”, justifica. A inspiração do texto apareceu na cabeça do dramaturgo Gustavo Pinheiro durante uma temporada na França. Perto da virada do ano, ele leu diversas reportagens sobre o aumento dos índices de suicídio no período – o que lhe deixou preocupado, mas atiçou sua criatividade. “Como pode a festa da renovação mostrar que as pessoas ficam tão desesperançadas?”, perguntou-se o autor. “Enxerguei a possibilidade de escrever uma comédia para falar de uma possível retomada da esperança na vida de cada um.”

Em Antes do Ano que Vem, a atriz representa, entre outras, uma adolescente carente da atenção dos pais, uma socialite falida, uma cozinheira desempregada que virou assistente de telemarketing e uma pregadora do otimismo tóxico. Mariana entende o sentimento de cada uma delas. Em 2017, ela vivia uma ótima fase profissional com a novela A Força do Querer, o filme Minha Mãe é uma Peça 2 e a participação no quadro Dança dos Famosos, do Domingão do Faustão. “Comecei a sentir um vazio, uma cobrança inexplicável de todos que olhavam para mim que uma ida ao shopping para comprar um chinelo virava um enfrentamento”, revela. “Minha eliminação da Dança dos Famosos foi o ápice do pânico, eu paralisei, esqueci a coreografia inteira e não sabia o que fazer.”

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Eu acredito na comédia como ferramenta crítica
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Mariana Xavier, atriz

Com o diagnóstico de transtorno de ansiedade, Mariana intensificou o tratamento psicológico e enxergou que ela própria definiria a artista que seria dali para frente. “Faço questão de andar de metrô, ir ao supermercado e me recuso a virar personagem de mim mesma”, declara. Tal consciência a fez entender que até o adiamento do espetáculo vem cercado de pontos positivos. Com a malhação em dia, a atriz recuperou o vigor físico para enfrentar o que chama de “crossfit teatral” e tratou dores que sentia nos joelhos e no tornozelo que a perturbavam nos ensaios, lá no final de 2019.

A mensagem da peça ampliou significados depois do isolamento social e do luto pelas mortes da pandemia, entre elas a de um de seus maiores amigos, o ator Paulo Gustavo (1978-2021). “Eu quero tratar de coisas que as pessoas têm medo de falar e, nos últimos dois anos, ficou clara a importância da saúde mental para enfrentar as adversidades”, afirma Mariana, que tem um canal no YouTube para abordar saúde, autoestima e aceitação. “Ninguém vai sair o mesmo depois de tudo o que estamos vivendo, nem mesmo o meu espetáculo ficou igual, pelo contrário, se tornou mais relevante para o público e motivador para eu mesma como profissional.” 

Antes do Ano que Vem

Até 24 de abril

Teatro Unimed: Alameda Santos, 2.159

Ingressos de R$ 50 a R$ 80 pelo Sympla. Obrigatório apresentar comprovante de vacinação.

 

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