EDSON KUMASAKI
EDSON KUMASAKI

'Soror', de Luisa Micheletti, passeia por mito do feminino

Com direção de Caco Ciocler, peça reúne Eva e Lilith em um acordo contra o ódio

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2019 | 03h00

Na série Deuses Americanos, que segue em uma emocionante segunda temporada, as divindades cheias de poder têm apenas um ponto fraco – cair no esquecimento. Suas histórias dependem, portanto, de seguidores que os mantenham vivos em rituais, e conquistar novos adoradores é essencial. Se Lilith fosse uma deusa vivendo nos dias de hoje, sua força seria conhecida nos quatro cantos do mundo, graças às suas fiéis. É com a mitológica ‘primeira mulher’, criada antes de Eva, que a peça Soror quer reatar laços.

Em cartaz no Sesc Ipiranga, a montagem marca a estreia da atriz Luisa Micheletti na dramaturgia e tem direção de Caco Ciocler.

Na história, Luisa parte da ideia de que o feminino sempre enfrentou o destino de que, diferentemente dos homens, os papéis das mulheres sempre foram limitados, nunca múltiplos. “O homem sempre conseguiu ser um herói e pai, amante, bandido, ao mesmo tempo. No caso da mulher, ela é vulgar ou santa, mãe ou bela, indecente ou respeitável.” 

Para a autora, que também atua na montagem, a polarização acaba por aprisionar as mulheres, e é quando Soror propõe uma solução ao reunir Eva e Lilith – duas figuras do mito cristão e aparentemente antagonistas. “Imaginei que pudesse criar um mundo em que as duas tivessem a chance de discutir seus próprios destinos.”

Ao contrário da fama mundial de Eva, a história de Lilith tem uma trilha mais oculta. A deusa dos ventos e das tempestades, adorada na antiga Mesopotâmia e na Babilônia, surge como demônio na crença tradicional cristã, de onde seu nome foi banido. É no Islã que ela ganha narrativa como a primeira mulher criada por Deus para corresponder aos desejos de Adão. “Lilith recusa se deitar com ele e ficar por baixo. Ao propor que os dois fiquem lado a lado, o homem rebela-se por considerá-la inferior”, diz Luisa.

Entre os cristãos, Lilith ganha a forma animal da serpente, responsável por enganar Eva e arrancar o novo casal do jardim do Éden. “E mais uma vez uma mulher é culpada por acabar com os planos perfeitos dos homens”, diz a autora. “Na peça, reúno esses fragmentos, propondo uma chance de que Eva e Lilith superem a difícil imposição e culpa histórica.” Além de Luisa, a trama traz no elenco Daniel Infantini, Fernanda Nobre, Geraldo Rodrigues.

Na encenação de Caco Ciocler, a equipe se voltou para as representações clássicas, nas artes, do casal banido do jardim. “Em grande parte, as pinturas foram registros de uma visão masculina, mercadológica sobre um imaginário. Nesse sentido, o patriarcado e o machismo acabam por manter essa reprodução. E, de alguma forma, ainda presos às obras.”

Para a autora, o antigo mito ganha um olhar contemporâneo, que inclui cenas de festas e palestras no estilo das conferências TED. “Resolvi trazer também Adão e Deus, que, na peça, tem um caráter de espiritualidade e menos como o criador para os cristãos.” 

Na cena da palestra, Luisa conta que o criador sobe ao palco para contar os bastidores de seu universo, discorrendo sobre leis da física quântica. “É quando uma delas tenta oferecer um outro ponto de vista e é silenciada, o que vai fortalecendo a fraternidade entre essas mulheres”, explica. 

Como diretor, Ciocler afirma que precisou compreender seu próprio espaço diante de uma dramaturgia que deseja debater o grito das mulheres e o enfrentamento da opressão. “Por se tratar de um texto feminista, sempre imaginei que eu tivesse que me ausentar da minha masculinidade. A melhor maneira foi deixar o texto da Luisa em evidência.”

Um tema urgente para elas – e para eles também 

Uma peça escrita por uma mulher sobre o feminino não parece que vai interessar um homem comum à procura de um espetáculo na cidade. “Ele vai pensar: ‘É uma peça que só dialoga com elas”, diz a atriz e autora Luisa Micheletti. Nos últimos anos, saber se comunicar tem sido a melhor estratégia para que qualquer produção teatral na capital não fique aprisionada no próprio tema, conversando apenas entre pares, como é o mais comum.

Em Soror, seria bastante natural, e quase imperceptível na cena, que o texto de uma autora também tivesse uma mulher na direção. Em São Paulo, por exemplo, tem crescido o número de produções vocacionadas com equipes – do texto à produção executiva – formada por mulheres. A questão, para Luisa, pairou, tanto quanto sua decisão em convidar Ciocler para dirigir. “Imagino que o fato de uma autora escrever pode atrair um público específico, as mulheres, assim como um homem dirigir, atrair o interesse deles, tornando o debate no palco possível.” Para Ciocler, o exercício significa, mais que nunca, ouvir e aprender com elas. “Cabe aos homens a chance de implodir o machismo por dentro.”

SOROR. Sesc Ipiranga. R. Bom Pastor, 822. Tel.: 3340-2000. 6ª e sáb., 21h; dom., 18h. R$ 30 / R$ 15. Até 5/5.

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