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Solos teatrais de Erica Montanheiro, Bruna Longo e Camila dos Anjos dão voz a mulheres oprimidas

‘Criatura, uma Autópsia’ foi concebido e protagonizado por Bruna, ‘Inventário’, escrito e interpretado por Erica, e ‘Quebra-Cabeça’, criado por Camila

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

01 de julho de 2021 | 05h00

Foi no carnaval de 2020 a última festa antes de o mundo se fechar por causa da pandemia. Centenas de pessoas se espalhavam por uma rua de Santa Cecília até uma chuva torrencial ameaçar a folia. “Vamos dar um tempo lá em casa, aqui pertinho, pelo menos até a tempestade parar”, disse a atriz Bruna Longo aos animados amigos. Em meio ao grupo, estavam as atrizes Erica Montanheiro e Camila dos Anjos, que, assim como Bruna, estrearam meses antes monólogos em torno de figuras femininas confrontadas com uma sociedade opressora. “Erica e Camila, por que a gente não une forças, junta nossos espetáculos e pensa em uma temporada coletiva?”, provocou Bruna, entre copos de tequila e latinhas de cerveja.

O projeto Anônimo Muitas Vezes Foi Mulher reúne três solos femininos, Criatura, uma Autópsia, concebido e protagonizado por Bruna, Inventário, escrito e interpretado por Erica, e Quebra-Cabeça, criado por Camila com base em sua história pessoal. Em comum, eles tratam de um trio de artistas, a escritora Mary Shelley, a escultora Camille Claudel e a própria Camila, que, nos séculos 19, 20 e 21, respectivamente, foram oprimidas em seus atos criativos e, muitas vezes, silenciadas em suas identidades.

Em versões filmadas, os espetáculos da trilogia estreiam nesta sexta, 2, e ficam em cartaz até 19 de setembro, ocupando o YouTube dos teatros Cacilda Becker, Arthur Azevedo, João Caetano e Alfredo Mesquita a cada três semanas. Criatura, uma Autópsia é o destaque de sexta (2) e sábado (3), às 21h, e domingo (4), às 19h, no YouTube do Cacilda Becker, sendo substituído na próxima semana por Inventário e, a seguir, Quebra-Cabeça. Os ingressos, gratuitos, devem ser reservados na plataforma Sympla.

Bruna, de 42 anos, parece disposta a derrubar projeções machistas com a parceria. “É preciso acabar com essa falácia de que mulher é competitiva. A gente se ajuda o tempo todo e estamos aqui somando forças”, defende. Em Criatura, uma Autópsia, a artista funde fragmentos do romance Frankenstein ou O Prometeu Moderno e elementos biográficos da inglesa Mary Shelley, que escreveu a obra-prima antes dos 20 anos e teve a autoria questionada. 

A atriz, um pouco indignada, conta que até hoje existem correntes acadêmicas que sustentam a possibilidade de o filósofo e poeta Percy Bysshe Shelley, marido de Mary, ter escrito o livro. “É irritante isso, fui a Oxford, li os diários, peguei em minhas mãos os originais do livro e está lá a letra dela, com uma ou outra observação do Shelley anotada”, comenta a atriz. “Não existe nada de anormal em ele, sendo um poeta, ter sido o seu primeiro leitor.”

O encanto de Erica, de 43 anos, por Camille Claudel vem do tempo em que morou na França nos anos de 2000, e também acompanhado de uma revolta. “Fiquei atravessada quando descobri que aquela mulher talentosa, cheia de atitude, passou 30 anos alienada do mundo, presa em um sanatório, depois de viver à sombra do irmão e do amante”, afirma a atriz, em referência ao poeta Paul Claudel e ao artista plástico Auguste Rodin.

Inventário começa com Erica envelhecida, caracterizada para a fase final da vida da escultora, perto de sua morte, e, em um clima fantástico, ela vai gradualmente rejuvenescendo ao longo do espetáculo, como se devolvesse a liberdade à personagem. “Acho que dessa forma eu me vingo um pouco pela Camille porque também, várias vezes, reclamo minha liberdade aos gritos”, justifica Erica, que contou com a direção de Eric Lenate na montagem. 

Diferentemente de Mary Shelley e Camille Claudel, Camila dos Anjos, de 35 anos, não foi sufocada diretamente por uma figura masculina. “Talvez a indústria cultural responda pelo papel do opressor. Ela quis me definir, mas eu não deixei”, explica. Em Quebra-Cabeça, a intérprete corajosamente olha para a própria trajetória, de artista-mirim que, na vida adulta, reavalia o tamanho da vocação e o real prazer naquele ofício. 

Na infância, Camila já estrelava diversos anúncios publicitários e, adolescente, conheceu a fama no elenco do seriado Sandy & Júnior, da Rede Globo, emplacando na sequência algumas novelas e matérias nas revistas. “Eu perdi um tempo que não volta, mas aprendi como funcionam os mecanismos da minha profissão”, reconhece. “Saindo desse meio, entendi qual é meu lugar, a importância do teatro, da dramaturgia, algo que muitas atrizes de televisão talvez não tenham descoberto até hoje.” 

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