JF Diório/Estadão
JF Diório/Estadão

Sob o fio da navalha, 'Se Eu Fosse Iracema' discute a causa indígena

Espetáculo premiado foge da representação comum do índio

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2017 | 05h00

Após a recente divulgação do samba-enredo da escola carioca Imperatriz Leopoldinense intitulado Xingu, O Clamor Que Vem da Floresta, a apresentadora Fabélia Oliveira da Rede Goiás afirmou, em resposta, que índios deveriam preservar a própria cultura, o que inclui “não comer de geladeira, tomar remédios químicos e morrer de malária, tétano e do parto”.

A atriz Adassa Martins discorda. “A gente pode aprender outro idioma e comer sushi sem precisar deixar de ser brasileiro.” A carioca integrante do Teatro Inominável segue em cartaz com o solo Se Eu Fosse Iracema, do grupo 1Comum, no Sesc Ipiranga. “Da mesma maneira, o nosso hábito de tomar banho regularmente herdado da cultura indígena não nos faz tão índios quanto eles”, conclui.

A montagem que estreou no Rio desembarcou no palco inspirada na figura do cacique Raoni, retratado no documentário Belo Monte, Anúncio de Uma Guerra. A dramaturgia de Fernando Marques comungou um canto de vozes com diferentes origens e interesses, explica a atriz. “São figuras que estão envolvidas na questão indígena brasileira, elas apresentam seus pontos de vista e suas contradições.”

Nessa trajetória, uma mulher toca o ciclo da vida em pontos como o surgimento do mundo, a infância, adolescência, vida adulta, alcançando uma anciã que antevê o fim do universo. Foi o momento em que a atriz e o diretor Fernando Nicolau mergulharam nos mitos que recontam o chamado descobrimento do Brasil. “É preciso repensar a nossa história continuamente”, ressalta Nicolau. “A falta de entendimento histórica tem reflexo nas discussões atuais, como a demarcação de terras.” 

Além da anciã, Adassa interpreta uma mulher urbana em contraponto com a tradição. Tal qual a apresentadora da Rede Goiás, a figura ironiza o comportamento dos índios em usar tecnologia e depender dela para a sobrevivência. “Trata-se de não se reconhecer enquanto brasileiro”, diz a atriz. “Pensar na causa indígena compreende a nossa cultura, a forma como nos relacionamos com as pessoas e na construção do País.” A questão política também dá espaço ao hábito do homem branco de “folclorizar” o índio. “Há o interesse de tratá-los como um fóssil, na condição de achados, o que impede o diálogo com pessoas e famílias”, defende ainda Adassa.

E é em cima de um tronco de árvore cortado que ela mescla seu corpo a tantos discursos, alguns deles traduzidos para o guarani. “Queremos um panorama, um coro polifônico com as suas divergências”, conta também o diretor.

Figurino. A temporada no Rio rendeu indicações para os principais prêmios de teatro. Na noite de terça, 24, a quarta edição do prêmio Cesgranrio reverenciou o figurino e a caracterização de Luiza Fardin para a montagem. O traje é composto por uma pesada saia de látex, um colar feito da lâmina de um facão e uma galocha e a figurinista explica que a ideia era fugir do estereótipo do índio. “Pensamos em materiais que remetessem à indústria e produção, como o ciclo da borracha e da cana.” 

Ela ressalta que houve grande surpresa na indicação e no prêmio. “Esteticamente, não fica claro que queremos retratar uma figura indígena. A única coisa que mantemos da cultura é o peito nu da Adassa”, lembra. “Ficamos felizes também porque a peça é um monólogo, gênero raramente indicado para prêmios, e por ser um único figurino, sem trocas”, completa a figurinista.

SE EU FOSSE IRACEMA. Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822. Tel.: 3340-2000. 6ª, 21h30; sáb., 19h30; dom., 18h30. R$ 10 / R$ 20. Até 12/2. 

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