Fabio Motta / Estadão
Fabio Motta / Estadão

Servidores 'abraçam' o Teatro Municipal do Rio em protesto após 4 meses sem salário

Primeira bailarina da casa, Ana Botafogo, atual diretora do balé, e o coreógrafo Carlinhos de Jesus dançaram a valsa Fascinação, nesta segunda-feira, 18

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2017 | 23h05

RIO - Pela terceira vez este ano, servidores do Teatro Municipal do Rio, sem salário de outubro e novembro e também sem perspectiva de receber o 13º de 2016 e 2017, fizeram um protesto nesta segunda-feira, 18, na escadaria da casa, para chamar a atenção para a penúria por que passam. O objetivo: deixar claro que não pode ser considerado natural trabalhar de graça para o Estado. Os funcionários estão se revezando em suas funções, uma vez que falta dinheiro para o transporte até o teatro e para alimentação.

Coro, balé e orquestra apresentaram trechos de Carmina Burana, de Carl Orff, a Sinfonia nº 9, de Beethoven, Choros nº 10, de Villa-Lobos e Comida, dos Titãs. Ao som de Apesar de Você (Chico Buarque), deram um abraço simbólico no prédio histórico do teatro, na Cinelândia. Primeira bailarina da casa, Ana Botafogo, atual diretora do balé, e o coreógrafo Carlinhos de Jesus dançaram a valsa Fascinação (Fermo Marchetti).

Eles se sentem desprestigiados pelo Estado, que passa por crise financeira e atrasa salários há dois anos. “A área da segurança recebe antes, a educação também, a saúde. A cultura, a ciência e tecnologia e a Universidade do Estado do Rio (Uerj) ficam por último,  sendo a cultura a impressão digital de um povo”, lamentou Pedro Olivero, integrante do coro e representante dos servidores.

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“O que está acontecendo prova que cantar, dançar e tocar, você ser artista, num Estado como o Rio, que é, ou era considerado a caixa de ressonância cultural do Brasil, ficou esvaziado. É uma humilhação. Temos alguns dos melhores músicos do Brasil correndo atrás de cesta básica”, completou.

Os funcionários recebem nesta terça-feira 200 cestas básicas do Natal Sem Fome, campanha da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida; semana passada, contou com 120 cestas da Legião da Boa Vontade. O teatro tem 550 funcionários; os que ganham menos de R$ 3 mil estão recebendo alimentos prioritariamente.

Durante o ato, eles pediram em coro a Ana Botafogo para que ela aceite o convite da Secretaria Estadual de Cultura, à qual o teatro é ligado, para presidir a casa, que faz 110 anos em 2019. Eles acreditam que o prestígio internacional da bailarina, há 36 anos no teatro, possa ajudá-lo a se reerguer. O coro se estendeu às centenas de pessoas que assistiam ao manifesto artístico na rua.

Ana, uma das protagonistas da batalha dos servidores por salários, disse que ainda não tem uma resposta a dar – está estudando a proposta e fazendo reuniões para se inteirar da situação administrativa do teatro. “Estarei na quarta-feira com o secretário (que é um coronel do Corpo de Bombeiros, Leandro Monteiro). Estou avaliando. Sempre fui artista de palco, e há dois anos e meio dirijo o balé junto com a (também primeira bailarina) Cecilia Kerche. Gostaria muito de assumir tendo condições de trazer esperança para o teatro e para os artistas”.

Outro lado

A Secretaria Estadual de Cultura confirmou que "estão em atraso os salários dos funcionários do Teatro Municipal referentes a outubro e novembro, mais os 13º salários de 2016 e 2017" e informou que "a assinatura do acordo entre os governos do Rio e o Federal, na sexta-feira - possibilitando o empréstimo de R$ 2,9 bilhões pelo banco BNP Paribas - vai permitir a liberação de R$ 2 bilhões, ainda nesta semana, para pagamento do 13° salário de 2016, de toda a folha do funcionalismo de outubro e iniciar o pagamento de novembro.  Os R$ 900 milhões restantes devem estar disponíveis em janeiro, para permitir a regularização dos salários."

 

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