Nilton Fukuda|Estadão
Nilton Fukuda|Estadão

Sérgio Mamberti faz centésima apresentação de 'Visitando o Sr. Green'

Depois de 12 anos longe dos palcos, ator retoma projetos artísticos e também anuncia que está se preparando para dirigir cinema

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2015 | 04h00

Era uma tarde calma. Um toque na campainha bastou e, em menos de cinco segundos, surgiu uma voz autorizando a entrada. Em seguida, o portão se abriu dando para uma escadaria apinhada de flores e sinos de vento. O ar parecia diferente. No último degrau, o dono da voz foi avistado. À porta, o ator e dramaturgo Sérgio Mamberti, 77, aguardava, sorridente.

Nos últimos 12 anos, uma visita como esta seria certamente interrompida por algum compromisso das secretarias responsáveis por teatro e música, nas quais atuou dentro do Ministério da Cultura. Mais tarde, ele ainda passou pelas secretarias da Diversidade Sexual, Cultural e foi presidente da Fundação Nacional das Artes entre 2008 e 2011. Por fim, também dirigiu a secretaria de Políticas Culturais.

Depois do extenso jejum dos palcos, Mamberti retorna com muito fôlego. Em cartaz desde 24 de abril desse ano, ele completa neste sábado, 28, a centésima apresentação de Visitando o Sr. Green, no Teatro Jaraguá. “O teatro é muito exigente, não é?”, diz. “Cheguei a gravar algumas coisas durante minhas férias, mas atuar nos palcos seria inviável.”

Na peça do norte-americano Jeff Baron, Mamberti vive um velho judeu ortodoxo solitário e rabugento. Após um pequeno acidente de trânsito que resulta em um quase atropelamento, o jovem executivo Ross Gardner (Ricardo Gelli) é acusado de negligência e considerado culpado. Sua pena é prestar serviços comunitários na casa do Sr. Green. Obrigados à uma convivência durante seis meses, a relação começa espinhosa. “Eles são de formação e gerações distintas. Sr. Green é impaciente demais e Ross guarda um segredo.”

O encontro com o texto se deu ainda durante o trabalho nas secretarias. Produzido pelo filho Carlos Mamberti, a peça tem direção do antigo amigo Cassio Scapin. “Essa parceria me deu confiança para voltar. Assim que eu li o texto, eu já sabia que queria fazer.”

Em uma das cenas, o fosso que separa os dois homem aprofunda ainda mais. Ross confessa que é gay, sob o olhar furioso de Sr. Green. Para Mamberti, o trabalho na secretaria de diversidade sexual estimulou a ideia de discutir o tema na forma de um espetáculo. Ele conta que é preciso, enfim, atualizar o discurso na atualidade. “Há alguns anos, falávamos de tolerância. Hoje, isso já era para ter sido ultrapassado”, aponta. “Algumas pessoas dizem: ‘Eu não aceito, mas eu tolero!’ Essa fala traz um aspecto autoritário e muito arrogante. A grandeza da vida é abraçar e aceitar o outro.”

E, ao tratar de um assunto como esse, explica o ator, o público atraído não poderia ser mais plural. “As gerações também se encontram na plateia. Há as pessoas de mais idade e os jovens.” A razão, nos dois casos, pode acontecer pelo fácil reconhecimento da figura de Mamberti. Para os mais velhos, que acompanharam a longa carreira do ator, calcada também em novelas e filmes, e para os jovens, que passaram suas tarde assistindo à Castelo Rá-Tim-Bum, série produzido pela TV Cultura e exibida originalmente entre maio de 1994 e dezembro de 1997. “Castelo foi, talvez, a maior obra infantil para a televisão!”

E, sobre educação, no caso recente do tema da redação do Enem, Mamberti tem o que dizer. Intitulada “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, o enunciado começava com: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. O trecho de Simone de Beauvoir (1908-1986) foi o bastante para causar furor nas alas conservadoras. Em Campinas, vereadores aprovaram uma moção de repúdio à escritora. “Imagine, Simone é inquestionável!”, ele ri. Mamberti a conheceu pessoalmente junto com o filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980), curiosamente, no Hotel Jaraguá. “Ela não era uma feminista presa à uma rebeldia irracional mas enxergava as coisas de maneira equidistante.”

Para tanto, ele intui uma explicação sobre esse mundo de excessos. “Sempre que haver movimentos e ações que afirmem a diversidade ou liberdade, também haverá um onda contrária, que pode ser igual, e muitas vezes, superior.” No Brasil, conta ele, essa frente está representada no trabalho da bancada evangélica. “O fundamentalista religioso é perigoso porque não respeita a alteridade. Eles costumam condenar manifestações populares, julgando como ‘coisas do diabo’.”

Para ele, a solução está em manter o otimismo e não desistir. “A cultura precisa permear todas as instâncias de uma sociedade democrática e depende de todos”, explica.

Para 2016, Mamberti já mira novas empreitadas, a começar viajando com a peça para o interior, Sul e Nordeste do País. Ele também prepara um projeto de leituras com os principais textos desde Anchieta. E, por fim, confessa que vai realizar um antigo sonho: dirigir cinema. “Estamos escrevendo o roteiro e o restante é segredo”. Ok, então fica para a próxima visita.

VISITANDO O SR. GREEN. Teatro Jaraguá. Rua Martins Fontes, 71, Bela Vista. Tel.: 3255-4380. Sex., 21h30; Sáb., 21h; Dom., 19h. R$ 50. Até 13/12

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    Teatro

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.