Carol Beiriz
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'Senhora dos Afogados' cria diálogo entre ícones religiosos e paisagem de Recife

Jorge Farjalla vai ao mangue para criar Santa Ceia macabra na obra de Nelson Rodrigues, censurada entre 1948 e 1954

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2018 | 06h00

O que Nelson Rodrigues acharia das plateias de hoje em dia? Na estreia de sua Senhora dos Afogados, em 1954, com Nathalia Timberg e direção de Bibi Ferreira, parte do público aplaudia gritando “gênio” e o restante chamava o dramaturgo de “tarado”, nada muito diferente da reação à polêmica performance de Wagner Schwartz no Museu de Arte de São Paulo, cuja investigação foi arquivada na quinta-feira, 22, à tarde

Para o diretor Jorge Farjalla, que estreia a versão da peça mais pernambucana do autor, nesta sexta, 23, no Teatro Porto Seguro, Senhora dos Afogados continua sendo um desafio nos palcos. “Naquela época, não dava nem para imaginar que a peça entraria em cartaz, já que estava proibida pelo governo Vargas.”

A recusa ao texto considerado pelo próprio autor como “fétido e pestilento” não foi luxo da censura. Conta-se que Glauber Rocha planejou criar uma película, mas logo desistiu por considerar a obra “autoral demais”. Bibi Ferreira foi sondada para dirigir depois que a atriz Henriette Morineau recusou o convite para encenar a montagem.

Na peça, a família Drummond, que se orgulhava de não cometer o pecado da infidelidade conjugal há gerações, se dirige para um circo macabro de tragédias à beira-mar. Incluídos aí alguns assassinatos, incestos e fratricídios, tão presentes nas tragédias de Shakespeare, ou mais precisamente em Electra Enlutada, de Eugene O’Neil, que, por sua vez, é inspirada em obra de Eurípides. “Aqui temos Moema, a filha de Misael que deseja o pai ardentemente e que fará de tudo para ficar com ele”, afirma o diretor. “É claro que sua vontade nunca será consumada, já que, como nas tragédias, o desejo anda sempre ao lado da morte.”

Mas o patriarca (João Vitt) tem sangues nas mãos. Enquanto lamenta a morte da caçula Clarinha, por afogamento, na vila em que vivem, as prostitutas do cais do porto se reúnem para relembrar o assassinato de uma colega, há 19 anos. Sua mulher, dona Eduarda, em um casamento triste, deixa Misael e foge com o noivo de Moema, vivido por Rafael Vitt, figura suspeita na solução do antigo crime. Aos poucos, mais delitos serão revelados, no ritmo das ondas do mar. Para o diretor, o texto se distingue por não ser uma peça carioca, como boa parte da produção do dramaturgo. “Ele volta ao tempo de criança, quando ainda vivia em Pernambuco e põe o mar e o mangue como uma grande paisagem na vida dos Drummonds.” 

No ano passado, Farjalla estreou Doroteia, com Rosamaria Murtinho e Letícia Spiller, sobre uma ex-prostituta que larga a profissão depois da morte do filho e vai morar na casa das primas feias e puritanas. “É uma grande peça que poderia ser considerada Teatro do Absurdo. Como em 'Senhora dos Afogados', a repressão sexual vem para revelar a escuridão das personagens, que passam a tomar atitudes extremas.”

No vaivém das ondas que conduz a vida dos Drummonds, o diretor apostou em uma alusão ao manguezal recifense, com a lama engolindo as personagens e um farol que se abre revelando um relicário. Para ele, isso ajudou a criar pontos de contato entre religião e tragédia. “É uma peça em que o profano se alimenta do sagrado”, diz o diretor sobre cenas que reproduzem momentos icônicos do cristianismo, como a Santa Ceia, Pilatos lavando as mãos e a crucificação de Cristo. 

Parte desse mergulho em signos religiosos se deu em contato com o livro Nelson Rodrigues Evangelista, de Francisco Carneiro da Cunha, no qual está relacionada a dramaturgia do autor com os quatro evangelhos do Novo Testamento. “Foi uma viagem com o elenco, ao encontrar tantas relações de sagrado e profano andando juntas”, afirma. “Nós nos cercamos de muitas referências e acredito que os atores devem ser como uma Caixa de Pandora, que, quando é aberta, traz muitas revelações.”

Se há a possibilidade de a peça chocar, como aconteceu na estreia oficial – liberada por Otto Lara Resende, então ministro da Justiça –, Farjalla titubeia e afirma que o objetivo é que o diálogo seja o protagonista. “Acredito que podemos construir uma relação de reconhecer a beleza na arte, na vida, e entender quem somos.”

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