Timmy Blupe
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'School of Rock' salta do cinema para os palcos

Compositor de sucessos como ‘Cats’, ‘Evita’ e ‘O Fantasma da Ópera’, Lloyd Webber faz do título mais um grande musical

Dave Itzoff, The New York Times

28 de dezembro de 2015 | 03h30

Num recente ensaio para seu novo musical na Broadway, School of Rock (Escola de Rock, Andrew Lloyd Webber veio caminhando pela coxia do Winter Garden Theater até o palco. Estava lá para ajustar o quarteto de músicos que faz o papel de uma banda de heavy metal juvenil nesta adaptação da comédia de 2003 estrelada por Jack Black.
Mas, acima de tudo, ele queria conversar sobre o terceiro movimento da sonata para piano número 7 de Prokofiev.
Cercado pelos jovens atores, que mais cedo estavam “atirando” uns contra os outros com os dedos imitando armas e debatendo o significado da canção pop Pumped Up Kicks, Lloyd Webber, compositor e empresário de musicais, começou a improvisar com a voz o frenético ritmo da peça de Prokofiev – “da-da-da-da-da”  e então pediu a eles que adivinhassem a assinatura de tempo da música. “É em cinco?”, perguntou Brandon Niederauer, guitarrista de 12 anos e cabelos desajeitados.Com uma voz orgulhosa e pedagógica, Lloyd Webber respondeu: “Sete.” Enquanto descia do palco e se dirigia à mesa de som, no fundo do teatro, ele explicou que a sonata de Prokofiev era “o melhor trabalho de 7/8 já feito. É puro rock.”
Lloyd Webber, de 67 anos, pode ser a pessoa menos provável para produzir e compor um musical sobre alunos reprimidos de uma escola preparatória, que aprendem sobre superação com um heterodoxo professor substituto. Embora seja o compositor de musicais duradouros como Cats, Evita e O Fantasma da Ópera, ele também é, em seu Reino Unido natal, um lorde e um barão, com patrimônio estimado em cerca de US$ 1 bilhão. Ele tem se mantido produtivo, mas há mais de uma década não estreia um novo espetáculo na Broadway.
Talvez ele seja muito convencional, pouco familiarizado com os gostos contemporâneos e muito parte do establishment para realmente entrar no filme (e agora no espetáculo) cuja letra de uma música diz “Você não é radical/Se não viver radical” (Your are not hard-core/Unless you live hard-core).
Mas, numa verificação mais atenta, talvez Lloyd Webber, que ajudou a legitimar musicais como Jesus Cristo Superstar e José e seu Manto Technicolor, seja distintamente qualificado para contar a narrativa de como riffs de guitarra e rufos podem ser a linguagem de libertação para artistas frustrados.Talvez a bobagem de School of Rock, que estreou em 6 de dezembro, seja o que ele precisa para usar sua autoconsciência e se reconectar com a música de trens malucos neblina púrpura.
Como Lloyd Webber disse, a respeito do espetáculo de US$ 16 milhões: “eu não escrevi uma partitura que vai mudar o mundo ocidental ou a música como a conhecemos atualmente. Mas eu espero que seja divertido”
Tomando café num salão em cima do Winter Garden, poucos dias antes da estreia, Lloyd Webber havia chegado de Londres poucas horas antes. Enquanto esteve lá, participou de uma rara votação na Câmara dos Lordes que ajudaria a levar adiante um plano para cortar os benefícios sociais para trabalhadores de baixa renda e pessoas com filhos. (O projeto não foi aprovado, mas Lloyd Webber disse que foi votar para evitar que a Câmara dos Lordes anulasse a Câmara dos Comuns)
Ele estava vestido casualmente, como geralmente está, usando uma camisa social com alguns botões abertos, jeans e tênis. Ele fala de maneira educada, mas hesitante, referindo-se a si mesmo algumas vezes na terceira pessoa. Ele não se encaixa na definição de um nobre britânico ou de um compositor popular, mas ninguém tem mais consciência disso do que ele mesmo.
Cresceu amando os musicais de Rodgers e Hammerstein e conhecendo South Pacific praticamente de cor. Seu pai, William, era diretor da London School of Music, mas ele também levava o jovem Andrew para ver Prisioneiro do Rock, com Elvis Presley, e lhe ensinou valiosas lições sobre gosto pessoal.
Outra influência em sua formação foi a série da TV britânica Oh, Boy!, onde viu talentos emergentes como Cliff Richard e Brenda Lee se apresentarem no decrépito Hackney Empire, em Londres.Anos mais tarde, ele e Tim Rice gravaram o álbum conceito original de Jesus Cristo Superstar – elogiado, já naquela época, como revolucionário, além de sacrílego – no Olympic Studios, em Londres, ao lado do Led Zeppelin.
E eles experimentaram o sabor do estrelato pop no ano seguinte, quando viajaram a Nova York para estreia na Broadway.
Mas Lloyd Webber lembra-se da primeira vez em que viu o espetáculo, produzido por Robert Stigwood e dirigido por Tom O’Horgan, como “o pior dia da minha vida”. A produção era muito enfeitada e muito chamativa, segundo sua lembrança, e ele não tinha poderes para interrompê-la.“O que você pode fazer quando tem 23 anos?”
Quatro décadas mais tarde, Lloyd Webber e sua companhia, a Really Usefull Group, não permitem tal liberdade com sua produções mundiais do Fantasma, Jesus Cristo e Cats, que foi recentemente ressuscitada no West End e pode retornar também à Broadway.
Ele também teve fracassos, como The Woman in White, uma história de mistério que teve cerca de 100 apresentações na Broadway entre 2005 e 2006, além de Love Never Dies, sua sequência do Fantasma que foi friamente recebida pelo público e apresentada em várias partes do mundo, mas ainda não foi montada em Nova York.
Lloyd Webber disse ter se recuperado de um câncer de próstata, e que não sofre mais com os problemas nas costas.
Agora, encontra tempo para ir a clubes de Londres para ver novos artistas como Lauren Aquilina, cantora e compositora a quem seu filho, Alastair Lloyd, ajudou na contratação pela Island Records.“Se ele ouve falar sobre um bom show, ele vai ver”, disse Alastair, de 23 anos, gerente júnior do selo A&R. da Island Records. Quando era criança, o pai lhe apresentou Beatles, Led Zeppelin, Clash, Prokofiev e Shostakovich.
O filme School of Rock, escrito por Mike White e dirigido por Richard Linklater, também era exibido com frequência na casa de Lloyd Webber. Alastair estima que o tenha assistido “umas 40 vezes”. Fazia anos que Lloyd Webber planejava transformar o título em musical.
O espetáculo pode ser lido como uma ode à maturidade rock’n’rol de Lloyd Webber, com fragmentos de Satisfaction, dos Rolling Stones; Smoke on the Water, do Deep Purple e Walk on the Wild Side de Lou Reed.
A composição do musical (no qual Alex Brighman interpreta Dewey Finn) ocorreu entre junho e dezembro de 2014. Já existem planos para que o espetáculo seja transferido para a Broadway, uma trajetória incomum e agressiva para um musical que nunca foi apresentado fora da cidade.TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

Quem é: Andrew Lloyd Webber
COMPOSITOR, PRODUTOR E BARÃO
Compositor de musicais duradouros com Cats, Evita e O Fantasma da Ópera, ele tem título de lorde e barão no Reino Unido, sua terra natal com patrimônio estimado em cerca de US$ 1 bilhão.

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