Charles Sykes/AP
Charles Sykes/AP

Sarah Jessica Parker e Matthew Broderick levam gargalhadas de volta à Broadway

Atores estrelam 'Plaza Suite', obra de Neil Simon, que gira em torno de um casal no quarto 719

Peter Marks, The Washington Post

31 de março de 2022 | 10h01

NOVA YORK - Foi um golpe de gênio retrô: mergulhar Sarah Jessica Parker e Matthew Broderick na comédia de relacionamento de Neil Simon da década de 1960, Plaza Suite. Os velhos tempos alegres desse casal de atores cômicos parecem estar voltando também para nós, no Hudson Theatre, onde ocorreu a estreia oficial do revival na Broadway, na noite de segunda-feira, 28.

Parker e Broderick estrelam todas as três cenas da noite, cada uma construída em torno de um casal no quarto 719 do Plaza Hotel - um arranjo clássico de Simon que concede aos dois muitas oportunidades para piadas e palhaçadas de alto calibre. Eles encontraram um grande colaborador no diretor John Benjamin Hickey - também ele um ator com larga experiência em comédias. Aqui eles fazem jus à memória de Simon, o rei indiscutível da comédia da antiga Broadway, com vários sucessos ao mesmo tempo durante seu apogeu no final do século 20.

A especialidade de Simon em comédias como The Odd Couple e The Sunshine Boys eram as escoriações provocadas pelo excesso de intimidade. Ele era discípulo da Escola Judaica de Agravamento Perpétuo de Nova York, um ramo das artes dramáticas que postulava que a única intimidade significativa era aquela em que você irritava a pessoa amada de hora em hora. Para as personagens de Simon, amar significa nunca ter de pedir desculpas, principalmente porque os cônjuges estão muito ocupados se concentrando nos defeitos graves um do outro.

Esta tese é corroborada com mais propriedade na terceira peça, Visitor From Forest Hills, em que Parker e Broderick fazem os papéis de Norma e Roy Hubley, pais de Mimsey (Molly Ranson), que está para se casar no Plaza naquele mesmo dia. Mas ela se tranca no banheiro, situação que deixa Norma ofegante de mortificação e Roy remoendo obsessivamente o desperdício de um casamento de 8 mil dólares (não se esqueça, o ano é 1969!).

As reviravoltas que Norma e Roy são obrigados a enfrentar para tentar fazer com que Mimsey destranque a porta do banheiro são o terreno ideal para a comédia física de Parker e Broderick. Dentro de um vestido de mãe da noiva (da figurinista Jane Greenwood) cheirando a primavera, Parker saltita pela sala, enchendo-a de ansiedade. Fervendo de frustração paterna, Broderick tem um momento hilário no parapeito da janela da suíte, brigando com pombos enquanto executa a manobra mais ultrajante possível no esforço para invadir o banheiro.

O nível de conforto da plateia está sempre em proporção direta com a experiência dos atores. Então aqui tudo vai bem. O casal está tão sintonizado que um acidente na apresentação da noite de estreia só deixou as coisas ainda mais engraçadas: em dado momento, o Roy de Broderick deve correr até a porta do banheiro e não conseguir derrubá-la. Mas, naquela noite, a porta cedeu. Sem saber o que fazer, Broderick ficou olhando ao redor e depois se voltou para Parker, com quem compartilhou uma risada. Aí ele fechou a porta devagarinho e a cena continuou.

É assim que fazem os profissionais - e é isto que esses dois vêm fazendo durante toda a vida nos palcos: Parker substituiu Andrea McArdle na produção original de Annie em 1977 e Broderick interpretou Eugene Jerome na estreia de Brighton Beach Memoirs em 1983, ambas de... Neil Simon. Aqui eles comunicam uma adorável sensação de continuum que também se reflete no cenário resplandecente e detalhado de John Lee Beatty, um fac-símile luxuoso de um quarto do Plaza Hotel - com vista para o General Motors Building e tudo. Quando você quer um interior fantástico de Nova York, Beatty é imbatível.

Simon tinha a tendência de escrever muito em algumas de suas comédias. Essa predileção também fica evidente agora, sobretudo no primeiro ato, Visitor From Mamaroneck, que provavelmente parecia uma ideia muito mais refrescante no final dos anos 1960: um casal suburbano, neste caso Sam e Karen Nash, celebrando seu 23o aniversário de casamento - ou seria 24o? Karen não sabe ao certo - no momento em que a relação está se desfazendo. Broderick e Parker estão bem, mas a premissa é artificial e, no fim das contas, a previsibilidade leva a um impasse.

O segundo ato, Visitor From Hollywood, é uma transição mais curta e afiada para a sátira. Broderick é Jesse Kiplinger, um grande produtor de cinema que atraiu sua paixão dos tempos de escola, a dona de casa Muriel Tate, para a suíte na esperança de um rala-e-rola. Você se diverte com a alegria dos atores em explorar o estratagema, porque as intenções regadas a vodca das personagens não são apenas telegrafadas, mas também idênticas. As supostas evasivas de Muriel dão a Parker uma plataforma suculenta para uma timidez esplendidamente exuberante, e as tentativas desajeitadas de Jesse permitem que Broderick demonstre a sutileza cômica pela qual ele nem sempre é suficientemente reconhecido.

Com certeza, os tornados hiperbólicos de Plaza Suite se originam numa era antiga, à qual os espectadores de uma certa safra vão reagir com afeição instintiva. Juro que ainda dá para ouvir minha mãe na noite de 1969, quando ela e meu pai voltaram para casa depois de ver Plaza Suite na Broadway, e ela ria sem parar enquanto contava as piadas. Ela já se foi, mas Parker e Broderick a trouxeram de volta à vida na noite de estreia, me fazendo rir também. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

 

 

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