Sarah Brown traz peça inédita sobre mulher que perde a memória

Atriz norte-americana usa o monólogo Shooting Stars in Jordan como escolha artística e de vida: "Um astro deve acreditar que, sozinho, é suficiente para cativar uma plateia e ser um contador de histórias convincentes"

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2017 | 05h00

Está vendo aquele ser humano ali no palco, debatendo-se como um baiacu fora d’água em seus últimos minutos de vida? Ele tem nome, ou melhor, ela: Sarah Brown. Contracena consigo mesma, brincando e amargurando com as situações criadas pelo texto, usa a plateia como cúmplice de sua atuação e, não bastasse essa parafernália de emoções, inventa amigos imaginários para impulsionar sua performance. E ainda tem mais.

Sarah é uma atriz norte-americana que, ao longo dos anos, se especializou em monólogos. Monólogos que ela mesma escreve e nos quais atua. E agora chega ao Brasil pela primeira vez para apresentar o seu Shooting Stars in Jordan (Estrelas Cadentes na Jordânia). A peça foi escrita em Israel, onde passou um ano por conta de uma bolsa Fulbright, do Departamento de Estado dos EUA, para lecionar Solo Performance na Universidade de Haifa – também professora na Universidade de Memphis. 

Durante uma viagem à Jordânia, criou o texto da peça com vários personagens. Ela é uma americana que perde a memória após um colapso nervoso em uma excursão de ônibus – o que seria compreensível – e sai em busca de si mesma. Aparecem outros personagens, como uma dançarina do ventre, uma mulher divorciada que pede a mão de um guru em casamento por quem ela se apaixonou e uma mulher bêbada perdida no deserto com seu camelo a caminho do inferno. E o bicho com o lombo cheio de garrafas de vinho. 

A peça foi apresentada em teatros do Off Broadway e também participou do New York International Fringe Festival em 2012. Na sua passagem por São Paulo, além da peça, que integra as comemorações do Dia Internacional da Mulher com parte da renda que vai reverter para a ONU Mulher, Sarah fará um workshop sobre como escrever monólogos para 20 pessoas. Na semana passada, ela falou ao Estado.

Fazer monólogos foi uma escolha de vida? Como começou? 

Gosto de escrever peças para outras pessoas atuarem, mas escrever e atuar em monólogos me permite usar cada parte de mim como artista: física, emocional e intelectualmente. Posso invocar minha imaginação e criar completamente pessoas que eu também possa retratar. É como ser o construtor de um navio, o capitão e a tripulação. Mas isso também pode ser bastante cansativo e carece da diversão criativa de trabalhar com outros atores.

O que uma atriz ou um ator precisa para atuar em monólogo?

Precisa de uma forte crença em sua capacidade de encher o palco com sua presença. Deve acreditar que, sozinho, é suficiente para cativar uma plateia e ser um contador de histórias convincente. É essa confiança na sua dinâmica pessoal e a sua presença em cena que vai permitir atuações com nuances e texturizadas. Volta e meia, vejo performances de jovens atores muito exageradas. Isso resulta em um desempenho superficial. É verdade que a responsabilidade de manter sozinho uma plateia por longo período de tempo é incrível. Mas se um ator se concentrar em contar a história bem e de forma crível, em vez de ceder ao seu medo de que não é suficiente – certamente resultará em um bom desempenho.

E o diretor, o que precisa para conduzir um monólogo?

O diretor precisa saber que nós, que estamos atuando em um monólogo, muitas vezes sentimos que precisamos nos movimentar muito. E isso acontece pela preocupação de não poder fisicamente ocupar um grande palco e manter o público entretido sem se mover muito. É preciso muita tranquilidade do diretor para acalmar esses desejos de sair dançando e cantando por aí, quando não é realmente necessário. Tive um diretor maravilhoso, que me ajudou a desenvolver meu monólogo em Israel, que me deu permissão para ficar quieta e também para ver os “outros personagens” com quem estava falando. Ele se certificou de que eu estava escutando meus parceiros imaginários de maneira que os fazia ganhar vida para o público, embora eu fosse a única no palco. Sem um bom diretor guiando o ator solitário para desacelerar, o ator entrará em colapso da exaustão no palco, porque não há outros atores para compartilhar o fardo da diversão.

O que um texto teatral deve ter?

O elemento-surpresa! Que o público não seja capaz de prever o que vai acontecer. Também é maravilhoso que tenha alguma aventura que resulta em mudanças inesperadas. Vendo alguém mudar em cena é tão emocionante porque é a história de nossas vidas resumidas. Vamos ao teatro aprender como administrar as mudanças na nossa vida. É uma forma de vermos se estamos fazendo certo e como podemos fazer melhor e perceber que não estamos sozinhos em nossas transformações.

Tem algum projeto novo?

Estou escrevendo uma peça baseada na história de uma mulher afro-americana durante a Guerra Civil americana. É um caso trágico, mas, novamente, uso o humor como ferramenta para mantê-la real, envolvente e que reafirma o amor pela vida.

Então, que só o humor salva?

Sim! O humor nos salva, nos eleva, nos conecta da maneira mais saudável com nossos amigos, amantes, familiares e o mundo que nos rodeia. O humor é uma perspectiva instantânea. Acredito que outras formas de teatro podem ser nutritivas, mas minha crença pessoal é a de que só humor salva.

SHOOTING STARS IN JORDAN

Teatro Gazeta. Av. Paulista, 900, 3253-4102. 8/3, 20h. R$ 25 a R$ 60.

Workshop: Laboratório de Redação. Av. Paulista, 807, cj 1810. 11/3, 14h. Até 20 pessoas. Grátis

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