Wilian Aguiar | DIV
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São Paulo Companhia de Dança opta pela ligação do clássico com o atual em nova temporada

Companhia de dança paulista estreia seis obras em que reforça esse laços

Juliana Ravelli, ESPECIAL PARA O ESTADO

03 Novembro 2016 | 05h00

A coexistência entre clássico e contemporâneo está na essência da São Paulo Companhia de Dança (SPCD) desde sua criação, em 2008. Mas é na temporada que começa na sexta, 4, no Teatro Sérgio Cardoso, que essa relação atinge profundidade. No programa, que segue até dia 27, serão apresentadas nove obras – seis delas estreias. De diferentes maneiras, elas alinhavam entre si os contrastes entre tradição e novo, revelando conexões de um clássico e um contemporâneo que vão além da técnica da dança.

Romeu e Julieta, coreografado para o grupo, em 2013, pelo italiano Giovanni Di Palma, abre as duas primeiras semanas de espetáculos. Tem na atemporalidade da obra de Shakespeare um elo natural com o presente, ampliado pela agudeza da movimentação de Di Palma e por um Romeu negro – o bailarino Nielson Souza.

“Shakespeare fala da essência humana. Por isso, faz a obra dele atemporal. Os balés de Romeu e Julieta que marcaram época são do século 20. Então, por que nesse século a gente retoma essa história? Acho que ela tem esse questionamento sobre a guerra e a paz. Hoje, estamos em um mundo com esse trânsito de pessoas buscando espaços para construir uma nova vida. Romeu e Julieta buscam o mesmo. Nisso o balé é muito presente. Está falando de um tempo atual” diz a diretora artística da SPCD, Inês Bogéa.

Entre os dias 17 e 20, ocorrem as estreias de dois trabalhos. Pivô, criação de Fabiano Lima, é um deles. Em cena, cinco bailarinos – quatro homens e uma mulher – dançam com bolas de basquete ao som da modinha Quem Sabe, de Bittencourt Sampaio (1834-1895) e Carlos Gomes (1836-1896), e do bailado da ópera O Guarani. Dança contemporânea, hip-hop, basquete e música clássica se combinam em algo novo. “É instigante. A bola faz com que o corpo se mova de forma diferente. Ela bate no ritmo da música”, explica Inês.

Ngali também é novidade. O coreógrafo Jomar Mesquita se inspirou em La Ronde, peça que Arthur Schnitzler (1862-1931) escreveu no fim do século 19, e na sua adaptação para o cinema, feita nos anos 1950 pelo diretor Max Ophüls (1902-1957). No palco, 12 duos revelam as conexões entre seis casais. Cada personagem se relaciona com outros dois, e todos são movidos por um desejo progressivo. Ngali é palavra aborígene que significa “nós dois, incluindo você”.

A proposta coincidiu com a “dança a dois” que Mesquita estuda e desenvolve há anos, por meio da desconstrução da dança de salão e sua união com o contemporâneo. Seu objetivo é uma movimentação natural. “O que é muito bom nesse trabalho – e tem a ver com o que gosto ao criar – é entortar os movimentos e gestos. Bagunço um pouco a cabeça e os corpos dos bailarinos com formação clássica, em que as linhas são muito presentes. Porque, para mim, o movimento curvo e retorcido tem mais relação com a visceralidade, paixão e desejo do que as linhas.” A variada trilha tem de Lupicínio Rodrigues (1914-1974) a Johnny Hooker, considerado uma das revelações da MPB. Além de Pivô e Ngali, GEN – de Cassi Abranches – completa o programa.

Na última semana da temporada, entre os dias 24 e 27, a SPCD apresenta Peekaboo, que o alemão Marco Goecke coreografou para a companhia em 2013. Na mesma noite, estreiam quatro pas de deux: O Corsário, O Talismã, Carmen e Fada do Amor. Os três últimos foram presentes que, assim, possibilitaram uma temporada com tantas novidades. Talismã foi dado por Pablo Aharonian, assistente de Marcia Haydée. Já a grande dama da dança, que em 2015 criou O Sonho de Dom Quixote para a companhia, presenteou o grupo com Carmen e Fada do Amor.

Repertório de 2017 persegue o otimismo

Para 2017, Inês Bogéa pensou em uma temporada que mantivesse o diálogo com nosso tempo e que, de alguma forma, reagisse ao clima de pessimismo que permeou 2016. Por isso, escolheu trazer para a São Paulo Companhia de Dança O Pássaro de Fogo, um duo do alemão Marco Goecke, com música de Stravinski (1882-1971). 

“É uma lenda, um arquétipo que traz a questão da renovação.” A gente está vivendo esse momento no País, de olhar para a nossa cultura e repensar algumas questões”, diz a diretora. “Tem um texto da Nadja Kadel, dramaturga do Marco Goecke, que diz uma coisa bonita: ‘Vemos o encontro entre o Pássaro de Fogo e o Príncipe. Duas criaturas de diferentes naturezas. Um pássaro que dança e um humano que voa’.”

Outro balé que integrará o repertório da companhia é o pas de deux 14’20”, do checo Jirí Kylián. Segundo Inês, a obra fala sobre o tempo, amor, sexo e envelhecimento. “É um pas de deux em que você entra em um universo muito intimista e se conecta consigo.”

Entre os brasileiros, Clébio Oliveira – que já havia criado para o grupo o elogiado duo contemporâneo Céu Cinzento, em 2015 – foi o escolhido para coreografar um novo conjunto. Já o clássico inédito será a suíte do balé Raymonda. O nome que assinará a remontagem, porém, ainda será definido. Além dos compromissos no Brasil, em 2017, a companhia fará mais uma turnê internacional. Dançará em Israel, França, Alemanha e Bélgica. 

 

SP COMPANHIA DE DANÇA.

Teatro Sérgio Cardoso.

Rua Rui Barbosa, 153, tel. 3288-0136.

5ª e sáb., 21h; 6ª, 21h30; dom., 18h.

R$ 10/ R$ 40. Até 27/11

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