Wilian Aguiar
Wilian Aguiar

São Paulo Companhia de Dança abre temporada com 4 estreias

Sob o tema Pássaro de Fogo, a companhia paulista recebe peças como 'Primavera Fria', de Clébio Oliveira

Juliana Ravelli, ESPECIAL PARA O ESTADO

01 de junho de 2017 | 19h47

As relações - com o outro, consigo mesmo, com o espaço, com diferentes artes ou até com o público - são o elo entre os nove trabalhos, quatro deles estreias, que a São Paulo Companhia de Dança (SPCD) apresenta a partir desta quinta-feira (1.º) no Teatro Sérgio Cardoso. E que momento mais propício, no Brasil e no mundo, para se pensar em relações e no que elas são capazes ou não de construir.

Inês Bogéa, diretora artística da companhia, escolheu o Pássaro de Fogo como tema da temporada. A ave fantástica simboliza o renascimento e a superação. O duo contemporâneo foi coreografado pelo alemão Marco Goecke em 2010, quando o balé O Pássaro de Fogo, de Michel Fokine (1880-1942), completou 100 anos. Na trama original, o príncipe Ivan recebe ajuda da ave para derrotar o feiticeiro Kaschei. 

O duo, que estreia com a SPCD, tem música de Stravinski (1882-1971) e foi remontado por Giovanni Di Palma. A obra do coreógrafo alemão trata do encontro entre o Pássaro de Fogo e o Príncipe. Por e-mail ao Estado, Goecke conta que sempre está em busca de criar algo grandioso a partir do simples e que enxerga mais semelhanças do que diferenças entre os personagens. “Nós todos somos príncipes e nós todos somos pássaros. A coisa mais bonita é como os dois se encontram.”

Pássaro de Fogo, terceiro trabalho de Goecke no repertório da SPCD, está na segunda semana da temporada, entre os dias 8 e 11. Também compõem o programa a estreia 14’20’’ e Indigo Rose, ambos do checo Jirí Kylián, e Suíte para Dois Pianos, do alemão Uwe Scholz. Em 14’20’’ - remontado pela bailarina Nina Botkay -, Kylián usa o tempo (real e metafórico) para falar sobre começo, meio e fim do relacionamento de um casal. “Tem a questão da passagem do tempo e do olhar sobre si mesmo para se relacionar com o outro”, afirma Inês.

Intensidade. Nesta primeira semana, há duas novidades. Suíte de Raymonda é uma delas. Guivalde de Almeida criou a versão para o terceiro ato do balé de 1898, criado por Marius Petipa (1818-1910). O trecho vibrante mostra a festa de casamento de Raymonda com o cavaleiro Jean de Brienne. Primavera Fria, de Clébio Oliveira, é outra estreia. Completam a noite Ngali, de Jomar Mesquita, e Pivô, de Fabiano Lima. 

Clébio vive em Berlim desde 2008 e já havia criado para a SPCD o elogiado duo Céu Cinzento. Em Primavera Fria, usa a ciência e a psicanálise para refletir sobre como o corpo se comporta quando ocorre uma ruptura com o ser amado. Treze bailarinos dançam a peça de 25 minutos. Por meio de conversas e pesquisas com o elenco, o coreógrafo constrói uma obra que conecta pessoas.

“É importante que os bailarinos entendam a ideia, de onde estou partindo. Porque mesmo com cada um dentro da sua subjetividade, é uma viagem coletiva. Foi uma espécie de reflexão e aprendizado. Começamos a trazer nossos fantasmas à tona e foi muito interessante. O que se vê em cena não é um punhado de movimentos, mas os bailarinos por inteiro”, garante Clébio. Mais uma vez, ele usa trilha especialmente composta pelo artista experimental italiano Matresanch (pseudônimo de Matteo Nicolai).

“Mesmo que o público não saiba todas as relações que estão na cena, vai descobrir outras que também não sei. Tem uma busca de diálogo, para que não sejam várias obras em sequência, mas que tenham significado. E que a temporada também funcione como espaço de reflexão e percepção”, afirma Inês. “A dança, neste momento, é uma arte fundamental de percepção do humano.”

A temporada termina com o marco do romantismo La Sylphide, apresentado entre os dias 16 e 25. O argentino Mario Galizzi fez a adaptação para a SPCD em 2014, partindo da obra que o dinamarquês August Bournonville (1805-1879) recriou em 1836. La Sylphide trouxe para o balé dois grandes símbolos: as sapatilhas de ponta e o tutu (a longa saia de tule). No enredo, um triângulo amoroso. Um camponês prestes a casar se apaixona por uma criatura mágica. Ele acredita que uma bruxa é capaz de ajudá-lo a viver o amor impossível. Mas é tudo ilusão, e o camponês termina arruinado. Uma lembrança de que, na verdade, nada acontece por mágica.

Alemanha vai ver versão bem brasileira de 'Dom Quixote'

Foi com a São Paulo Companhia de Dança que, em 2015, Marcia Haydée realizou um de seus grandes desejos: coreografar sua primeira obra para o Brasil, O Sonho de Dom Quixote. Em abril de 2018, como parte das comemorações de dez anos da SPCD, o balé será apresentado na Alemanha, país que adotou e consagrou Marcia.

A companhia dançará em Baden-Baden e Ludwigshafen, acompanhada pela sinfônica Deutsche Staatsphilharmonie Rheinland-Pfalz. “O mais bacana é que faremos com orquestra nessas duas cidades e com a presença da Marcia, que está muito feliz. Será realmente especial mostrar a nossa versão de Dom Quixote, que é muito brasileira”, informa Inês Bogéa, diretora artística da SPCD. Em Ludwigshafen, a companhia sobe ao palco no dia 18 de abril, quando Marcia completará 81 anos.

O Sonho é a reinvenção de Marcia para o tradicional balé Dom Quixote, baseado no livro de Miguel de Cervantes. Mas os alemães verão um trabalho com a cara do Brasil. No cenário, são usadas reproduções de até 8 metros de altura dos 21 desenhos que Candido Portinari (1903-1962) desenvolveu inspirado na obra de Miguel de Cervantes. Há também os poemas que Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) escreveu influenciado pelas ilustrações e as músicas que o violonista clássico Norberto Macedo (1939-2011) fez para cada poema.

Baden-Baden e Ludwigshafen já tinham recebido a SPCD em 2011 e 2013, respectivamente. Ainda em 2018, a turnê internacional da companhia passará por Lyon e Créteil (França), Fürth (Alemanha) e Luxemburgo.

SÃO PAULO CIA. DE DANÇA

Teatro Sérgio Cardoso. Rua Rui Barbosa, 153, tel. 3288-0136. 

5ª e sáb., 21h; 6ª, 21h30; dom., 18h. R$ 20 a R$ 40. Até 25/6.

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