Ronaldo Gutierre
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Sandra Corveloni une ficção e memória para exaltar ‘coisas que não mudam com o tempo’

Dirigindo e atuando, atriz vive a ‘viajante do tempo’ que recorda as lutas do povo enquanto monta a mesa do ano-novo

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

30 de outubro de 2021 | 05h00

A atriz Sandra Corveloni, de 56 anos, encontrou inspiração dentro de si mesma, na própria história, para atravessar esse ano e meio de pandemia sem se desvincular da arte. Com os teatros fechados e a produção audiovisual paralisada, ela passou a dedicar uma atenção maior aos seus pais, Guido, de 84 anos, e Clarice, de 83, que moram na Vila Perus, na zona noroeste de São Paulo. “Pegava o carro e passeava com eles pelas ruas do bairro, revendo os lugares onde cresci, passei boa parte da juventude e, em minhas visitas recentes, nem sequer prestava atenção direito ou conversava com velhos amigos.”

Sandra nasceu na cidade de Flórida Paulista, caçula dos três filhos de um casal de agricultores que, como tantos outros, resolveu tentar a sorte na capital. “Viajamos com outras três famílias em um caminhão e nos instalamos em Pirituba para, logo depois, mudar para Perus”, recorda. Seu Guido trabalhou em gráficas, almoxarifado, e tocou por muitos anos uma lanchonete na vizinhança, enquanto dona Clarice pisava forte no pedal da máquina de costura para fechar as despesas da casa. “A gente teve uma vida bastante difícil, mas sempre fui observadora, me metia nos corais, praticava esportes na Escola Brigadeiro Gavião Peixoto”, declara. “O que mais me chamava atenção, nessa época, era que todos os telhados eram cinza, encobertos pela poluição das chaminés das fábricas.”

A maior delas era a Companhia de Cimento Portland Perus, inaugurada em 1926, que abastecia as obras dos edifícios que mudavam a paisagem da metrópole em construção. É numa casa abandonada, no terreno da fábrica, que se passa a ação de Olhos de Recomeço, projeto de documentário e ficção dirigido e protagonizado por Sandra, com dramaturgia de Bárbara Queiroz, que estreia no YouTube neste sábado, 30. Os ingressos, gratuitos, para sessões aos sábados, às 21h30, e domingos, às 17h30, até 19 de dezembro, podem ser retirados na plataforma Sympla. 

As memórias da menina Sandra se transformam em texto e imagens por meio de uma narradora, uma espécie de viajante do tempo, que prepara a mesa para a primeira refeição da família em um dia de ano-novo. Suas recordações convidam o espectador a entender a população daquela vila de trabalhadores e as lutas de cada um para enfrentar o árduo cotidiano, como as primeiras articulações do movimento operário em busca de melhores condições de trabalho, no começo da década de 1960. “Eu voltei a ver aquelas mulheres estendendo as toalhas nos varais, outras perto da janela catando feijão e entendi que certas coisas não mudam com o tempo, passam de geração em geração, e isso me tocou demais”, afirma. 

Diante dessa visão, a própria Sandra se surpreende com as reviravoltas de sua trajetória. Ela ajudou o pai na lanchonete, fez curso técnico no Senai e foi recepcionista. O interesse pelo teatro surgiu depois que um professor do curso pré-vestibular a levou com os outros alunos ao Centro Cultural São Paulo para assistir aos espetáculos em cartaz. 

“Pouco tempo depois fiz um curso de teatro no Tuca, recebi o convite para substituir Alessandra Negrini na peça Beckett in White e, na sequência, entrei para o Grupo Tapa”, conta ela – que, em 2008, conheceria a consagração com o prêmio de melhor atriz do Festival de Cannes pelo filme Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. A artista ainda ganhou popularidade na televisão nas novelas Amor à Vida e O Outro Lado do Paraíso e pode ser vista atualmente na peça Tectônicas, no Teatro do Sesi. 

De volta às memórias da Vila Perus, Sandra recorda o dia em que, ainda no bairro, chamou os pais para compartilhar a decisão de ser atriz. Seu Guido, atônito, não entendeu nada. Coube a dona Clarice dar o estímulo de que a filha necessitava: “Vai ser um caminho difícil, você vai sofrer, mas, se for para a sua felicidade, siga em frente”. Sandra ainda hoje valoriza essa visão de mundo transmitida pela mãe. E se mudar para Perus representou “os olhos de recomeço”, para o casal Corveloni essa conversa impulsionou Sandra a acreditar em um caminho próprio. 

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