DANIEL TEIXEIRA/AE
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Sábato Magaldi tinha compromisso com a dramaturgia

Crítico encarnava o que Nélson Rodrigues chamava de 'ma flor de pessoa'

Alcione Araújo, ESPECIAL PARA O ESTADO

15 Julho 2016 | 08h39

Há uns 30 anos, pouco mais que um garoto, eu vivia em Belo Horizonte, onde eram escassas as informações sobre teatro - ou, pelo menos, insuficientes para suprir as lacunas da minha ignorância e a avidez da minha curiosidade. Mas eis que dois livros caem-me nas mãos como luzes acesas na penumbra. Um chamava-se Panorama do Teatro Brasileiro e o outro Moderna Dramaturgia Brasileira. De um mesmo autor: Sábato Magaldi.

O primeiro, de 1962, escrito para divulgar o teatro brasileiro no exterior, dá realmente um panorama - abrangente, sem perda de densidade analítica - da dramaturgia brasileira, desde Anchieta à geração do Nelson Rodrigues, Jorge Andrade, Guarnieri e Suassuna. Por modéstia e rigor - pérolas raras nos dias que correm - Sábato já se disse insatisfeito com o livro. Razões: ele ignorava Qorpo Santo, o insólito gaúcho descoberto após a primeira edição, e subestimou a inovadora força cênica de Oswald de Andrade. Lapsos miúdos para o fôlego da obra. Diante da carência de publicações no gênero, diz-se, no entanto, satisfeito por vê-la útil. Rigor e modéstia. 

Outro, O Texto no Teatro, foi meu guia para os autores estrangeiros contemporâneos. A luz que Sábato jogou sobre suas obras facilitou-me a leitura de Singer, Arthur Miller, O’Neill, Pirandello, Jarry, Strindberg, Camus, Ionesco, Dürrenmatt, Osborne, Brecht, Sartre e outros. Com esse livro, Sábato se tornou uma espécie de cicerone da minha primeira viagem pelo mundo. A vastidão e a profundidade do seu conhecimento de dramaturgia, literatura, história e filosofia podem ser melhor aqualitadas em obras, como O Texto no Teatro, que rompe o tempo, o espaço, culturas e civilizações num percurso que vai de Ésquilo a Heiner Müller. 

Embora mineiro como eu e já tendo criticado peças minhas, só nos anos 80 nos conhecemos pessoalmente, por coincidência na casa do Yan Michalski, outro crítico. De lá para cá acrescentei amizade à admiração. Acho que posso falar duas ou três coisas que sei dele. Além da modéstia e do rigor, Sábato é de uma honestidade feroz. Com ele, amizade não induz à complacência. Embora atento e aberto às mudanças, constrói juízos consistentes e não barganha seus pontos de vista com modismos. Tem inabalável compromisso de consciência com o fim das injustiças do Brasil, mas não submete suas reflexões às estreitas bitolas ideológicas. Modéstia e rigor: considera que, historicamente, a crítica erra mais do que acerta.

Educadíssimo como não o são os lordes ingleses, Sábato encarna o que Nélson Rodrigues - que também foi seu amigo - chamava de “ma flor de pessoa”. Salta aos olhos a sua jovialidade. É tímido, afável, de humor sutil, sorriso fácil, fala mansa e pausada. Nas pausas escolhe as palavras, que usa com critério. Conhece-lhes o peso específico e sabe a densidade que sua pessoa agrega-lhes quando as pronuncia ou escreve. Amigo dos amigos, cultiva amizade de décadas. Um dos estímulos para vestir o fardão foi ocupar a cadeira de Ciro dos Anjos, de quem foi amigo. Gosta de conversar e contar casos. Tenho me deliciado ao ouvir as histórias da sua geração em Minas. Com o tempo, eu me tornei um profissional, e o cicerone, um amigo.

* ALCIONE ARAÚJO É ESCRITOR

* TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA EDIÇÃO DE 01/02/1997 DO CADERNO2

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